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Daniella Greco

Graduada em Turismo com MBA em Marketing, Daniella Greco é a Chefe de Operações da Rede Cama e Café e atua como voluntária na elaboração e na implementação das atividades previstas no Projeto Turismo no Morrinho, ambos na cidade do Rio de Janeiro. Em entrevista ao IVT (gravada e transcrita), ela fala sobre o projeto e o turismo no morrinho (www.morrinho.org).



IVT: Vocês entraram no edital do Ministério do Turismo sobre Turismo de Base Comunitária. Qual é o caráter comunitário deste projeto, porque vocês enxergam esse projeto como um projeto de Turismo de base comunitária?

Daniella: Ele é um produto genuinamente criado por crianças de uma favela do Rio, no caso, o Pereirão, então o morrinho é um jogo feito de restos de materiais, de tijolos, de tampinhas de garrafas PET, que com o tempo foram sendo inovados para bonequinhos de lego, antigamente eles brincavam com as tampinhas. Na verdade, eles desenvolveram um jogo baseado na realidade de vida deles e ele tem um caráter comunitário porque ninguém ensinou essas crianças a fazer isso e do nada quando foram ver eles tinham 300 m² construídos e mais de 40 favelas, principais favelas do Rio de Janeiro, estão representadas hoje dentro do Morrinho, ele é uma obra de arte reconhecida pela Bienal de Veneza desde 2007, e a maquete já viajou cerca de uns 7 ou 8 países da Europa. Eles estão também viajando com o filme (Deus sabe tudo mas não é X 9 – de Fábio Gavião e Markão Oliveira) porque eles também são uma produtora, mas o que me faz entender como turismo comunitário, o que eles tem de comunitário, é esse produto genuíno que eles mesmos criaram. Eles criaram as próprias leis, eles criaram o brinquedo, eles criaram o universo deles, a ética deles; isso que eu acho que é o comunitário deles.

IVT: Temos diferentes tamanhos de comunidade, existem projetos que conseguem ter uma abrangência grande da comunidade outros não. Você consegue me dizer então, qual é o objetivo desse projeto e a abrangência dele na comunidade?

Daniella: O objetivo do Morrinho é, na verdade, como todos os projetos que a gente faz, mais uma fonte de renda para os meninos. O turismo nele ainda é um pouco embrionário e, apesar da projeção internacional que eles tiveram nas exposições, ainda tem uma grande visitação de grupos europeus mal trabalhada. Então, a gente está trabalhando com capacitação, treinando esses garotos para técnicas de vendas, atendimentos, guia de turismo e inglês, para que se comuniquem. O objetivo, então, é capacitar e revitalizar a área. A gente vai dar uma reformada na maquete porque ela está um pouco judiada. Por serem meninos de comunidade eles não têm dinheiro e recursos suficientes para sobreviverem do projeto, para tratarem o universo criador deles. Com o tempo queremos ser um agente multiplicador, porque indiretamente eles já fazem isso. O Morrinho hoje é um grande parque de diversões, a Disney deles, que traz crianças de comunidades vizinhas, ele é um momento (espaço) de integração não só da Pereira da Silva, como do Falete, do Fogueteiro (favelas cariocas), já existe uma mini maquete do Morrinho que eles fizeram em um workshop, dentro do Casarão dos Prazeres (centro cultural em Santa Teresa), então a gente tem o objetivo de estar entrando num roteiro de Turismo de Base Comunitária de Santa Teresa, principalmente trazendo e divulgando a arte deles e multiplicando essa técnica que eles acharam. A gente está no Rio de Janeiro e está falando de garotos de uma favela, que criaram uma técnica para se esquivarem do lado mau da história (de criminalidade e violência), praticarem o bem e darem bons exemplos. Então a gente quer levar isso adiante, tem esse objetivo de multiplicar, capacitar e tocar mesmo, assim para um roteiro em Santa Teresa, para um roteiro pelo o Brasil, porque não? Levando a prática deles como uma forma de inclusão social.

IVT: Gostaríamos que você nos falasse um pouco o quanto essa comunidade contribuiu para a elaboração do projeto e quanto ela tem contribuído para a implementação das atividades, das ações do projeto, se há esse envolvimento?

Daniella: A gente tem o envolvimento da associação de moradores e das mães dos meninos do projeto, como eles começaram muito novinhos com 13 e 14 anos, as mães é quem são até hoje, mais de uma década depois, as grandes representantes. Essas mães, que são as moradoras da comunidade, são as grande divulgadoras do Projeto Morrinho. Hoje o Morrinho é um motivo de respeito dentro da Pereira da Silva, a gente tem o envolvimento da associação de moradores, a gente elabora eventos para a comunidade em parceria com a ONG Morrinho. No final de ano a gente faz o natal das crianças, tenta buscar algumas coisas para o dia das crianças... Às vezes a gente tenta também se aliar no dia das mães na comunidade e em troca eles tem respeito, porque como eles começaram a viajar, participarem de exposições na Alemanha, França e Itália, são vistos hoje como heróis. É uma coisa muito curiosa, é um comportamento mudado, porque hoje quando você entra em uma favela no Rio de Janeiro, o herói da criança é o traficante, é o bandido, a pessoa que pratica o mau, vamos falar assim. Para eles, eles conseguiram reverter isso, os grandes heróis hoje dentro do Pereira da Silva são os do Projeto Morrinho. Hoje as crianças querem brincar lá, elas não querem pegar numa arma, elas vão pegar numa arminha de brinquedo, elas vão brincar porque elas querem viajar o mundo, então esse é o grande valor, o maior retorno que a gente pode ter, uma brincadeira genuína, que inclui pessoas. Os valores são mudados por uma brincadeira de criança.

IVT: Então, na verdade, essas mães são as tutoras dos meninos na implementação do projeto?

Daniella: Exatamente, elas são as grandes incentivadoras para que a gente chegue com novas idéias. Eu sempre faço reuniões com as mães primeiro, quando chega um projeto novo lá, pois elas vão ter a responsabilidade, porque as crianças vão ter que estudar, elas vão ter que fazer essas crianças irem às aulas e essas crianças terão a responsabilidade, quando acabar a capacitação, de passar isso para os coleguinhas e os amigos que lá forem brincar. São agentes multiplicadores e ensinarão até que se possa tornar o projeto realmente auto-sustentável. Então, nesse sentido, elas são grandes divulgadoras e participantes, da forma que elas podem, porque a maioria das mães trabalha muito, é gente de baixa renda, mas temos toda colaboração delas nas atividades. Elas adoram porque para elas é mil vezes melhor ter um filho brincando no Morrinho o dia inteiro, do que tê-lo no meio da rua pedindo esmola, do que vê-lo fazer coisa errada ou ingressar no tráfico de drogas. Então, elas incentivam isso e a comunidade também incentiva. O que acontece no tráfico do Rio de Janeiro, quem é mais aliciado? As crianças são aliciadas para entrar no tráfico e lá as crianças nem estão se tocando com isso, porque elas mudaram os valores justamente para a brincadeira do Morrinho, porque o grande lance é ir para lá brincar, um dia você pode ir para o exterior... Agora teve um intercâmbio para o Troca de Olhares (www.videonasaldeias.org.br/2009/oficinas.php?c=8), que é um intercâmbio áudio visual em que um dos meninos, da nova geração, que nunca tinha saído do Rio de Janeiro, foi para o Acre, para uma tribo indígena. Então, quem vai se destacando, a gente tenta puxar, dar uma premiação, levar para algum lugar, até, quando for possível, levar uma dessas crianças para feiras de Turismo.

IVT: Gostaria agora que você nos falasse sobre o lado ruim da história, até agora falamos do lado bom. Queria que você falasse dos obstáculos que consegue identificar tanto para a elaboração dessa proposta do Ministério de Turismo quanto para a implementação das ações do projeto.

Daniella: A gente tem um problema, a gente tem uma dificuldade muito grande com o cadastramento no portal SICAF (Sistema de Cadastro de Fornecedores do Governo Federal, necessário para obtenção de recursos), enfim, há uma equipe hoje que me ajuda, eu tentei fazer sozinha, mas não deu. Eu conto com várias pessoas que me ajudam nesta história. E na implementação não vejo ainda grandes problemas porque como já é o terceiro projeto de turismo (os primeiros foram com a Caixa Econômica Federal e com a Secretaria de Turismo), um complementa o outro. Eu percebo que a implementação por parte dos garotos vai ser uma grande curtição, porque eles esperam esse momento, eles querem muito que as coisas aconteçam e venham para eles, então esse apoio para executar eu vou ter. Esse apoio vai ser tranqüilo porque eles esperam, eles querem, eles têm expectativas, eles querem estudar, eles querem mudar a vida deles, a maquete e deles e preserva a historia deles. Eles já a entendem como uma obra de arte, como artistas e entendem que o turismo tem que estar organizado, bonito, limpo, pintado para receber dinheiro, para gerar rendar para eles e para a sobrevivência da ONG. Realmente só a verba chegando a gente poder liberar esses trâmites, liberar não, superar esses obstáculos da documentação, que são naturais até porque tem que ser tudo muito justificado, muito explicado, e é natural que seja assim. E aí, passando isso, eu acho que os obstáculos vão sumir, vão aparecer as soluções, aí já vai ser a outra parte.

IVT: A ultima pergunta que lhe fazemos é se você consegue reconhecer nesse projeto algo como uma inovação?

Daniella: O Morrinho é, como eu costumo falar, um celeiro de criatividade porque ele se renova a todo instante, então ele é uma brincadeira que quando você chega lá, nunca encontra a mesma maquete, eles sempre inovam, eles mudam, eles acham restos de telhado e já inventam uma casinha nova, inventam um prédio, eles acham um tijolo maior e fazem outra coisa, eles mudam o boneco de lego com outra roupa, eles inovam o tempo todo, inclusive nas brincadeiras. O efeito do contato internacional, das exposições, do contato com outras culturas e a historia da TV Morrinho - do Fabio e do Markão que são os precursores da TV Morrinho - desenvolve neles uma crítica, uma outra observação do entorno. Acho que isso inova também muito a mente deles, essas trocas com culturas e pessoas. Hoje é comum a gente ser buscado para trabalhos escolares, para trabalhos de faculdade, para TCC (trabalho de conclusão de curso), para pesquisas etc. E isso abre um horizonte para eles. Eles tiveram uma convivência agora, de um ano, com um estudante de doutorado de universidade na Colômbia (um Antropólogo, que morou na comunidade como parte de sua pesquisa), Alex Angelini morou dentro da comunidade e fez o trabalho junto a eles, então essas coisas sempre trazem inovações porque eles estão abertos para receber as informações que vem de fora. Eu acho que isso é um grande diferencial porque o Morrinho, na verdade, é um presente mesmo, porque nem em toda comunidade você consegue chegar e ter abertura e o carinho das pessoas, como a gente tem ali. Eu acho que eles realmente se abrem pra conhecer o novo e deixar o novo entrar. Você dá uma idéia e eles já transformam em uma história. Eles produzem curtas que veiculam no Youtube (http://www.youtube.com/results?search_query=tv+morrinho&search_type=&aq=f). Enfim, é uma viagem deles, que retrata a vida que eles conhecem e isso se inova a todo instante.

IVT: Há algo mais que você queira falar sobre o projeto?

Daniella: O que eu posso falar é que eu conheci o Morrinho há mais ou menos dois anos e meio através do Cama e Café (www.camaecafe.com.br/), que faz parte do território turístico de Santa Teresa e eu me apaixonei. É um projeto onde você chega e vê crianças incluídas no lado bom da história e no Rio a gente escuta e vê más notícias vindas de morros e favelas e, de repente, eu encontro um projeto abençoado como esse, que justamente prova o inverso, que quebra esse paradigma, que mostra o que é uma favela que vive sem armas, vive sem tráfico, onde crianças podem se incluir por meio de uma brincadeira, trilhando o caminho do bem. Então eu fiquei apaixonada, voltei para casa pensando até com o João Vergara (do Cama e Café) o que a gente podia fazer para aqueles jovens tirarem dali alguma renda. E aí agente vislumbrou a reforma da casinha, como eles chamam (a casa reformada que é sede do projeto), pela Secretaria de Turismo e, com o projeto do Ministério, vislumbramos promover a capacitação e a conclusão da revitalização e da expansão da maquete, que passará a ter 500m². A nova geração vai ter seus lotes porque lá cada criança tem o seu Morrinho. Então a nova geração não vai mais brigar, vão ter os seus lotes para construir, para por sua criatividade para fora, enfim, é isso que eu tenho para falar. Um projeto apaixonante para eu que vim de um hotel cinco estrelas e cheguei no Cama e Café. Eu enxergo hoje um outro turismo, que pretendo explorar mais num futuro mestrado em Antropologia. Eu conheci, assim, um outro turismo, que explora a cultura, que quer ver uma outra favela, como diz o José Junior (do AfroReggae – www.afroreggae.org.br/), as conexões urbanas onde o morro vira asfalto e asfalto vira o morro e todo mundo se mistura. E o turismo de base comunitária é justamente essa possibilidade de preservação de valores. É uma atividade similar ao que um pai pescador faz para seu filho, assim como um pai agricultor faz para um filho, assim como uma tribo indígena promove de pai para filho, ou seja, passa o conhecimento e a cultura para a nova geração. Eu acho que essas são as grandes riquezas do Brasil, acho que isso é turismo de base comunitária.