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ENTENDENDO
O FOLCLORE
Maria
Laura Cavalcanti
março/2002
A
palavra Folclore provém do neologismo inglês folk-lore
(saber do povo) cunhado por Williem John Thoms, em 1846, para denominar
um campo de estudos até então identificado como "antigüidades
populares" ou "literatura popular".
Nesse
sentido amplo de "saber do povo", a idéia de folclore
designa muito simplesmente as formas de conhecimento expressas nas
criações culturais dos diversos grupos de uma sociedade.
Difícil dizer onde começa e onde termina o folclore,
e muita tinta já correu na busca de definir os limites de
uma idéia tão extensa. É o frevo, o chorinho,
o xote, o baião, a embolada, mas será também
o samba, o funk, o rock? É o natal, a páscoa, o Divino,
o Boi-Bumbá, mas será também o desfile das
escolas de samba? É o artesanato em barro, madeira, trançado,
mas será também a arte de Louco ou de Geraldo Teles
de Oliveira?
Pensamos
e pesquisamos um bocado sobre o assunto. Chegamos à conclusão
de que mais importante do que saber concretamente o que é
ou não folclore é entender que folclore é,
antes de qualquer coisa, um campo de estudos. Isso quer dizer que
a noção de folclore não está dada na
realidade das coisas. Ela é construída historicamente,
e portanto a compreensão do que é ou não folclore
varia ao longo do tempo. Para se ter uma idéia, aqui no Brasil,
no começo do século, os estudos de folclore incidiam
basicamente sobre a literatura oral, depois veio o interesse pela
música, e mais tarde ainda, lá para meados do século,
o campo se amplia com a abordagem dos folguedos populares. Para
entender o folclore é preciso conhecer um pouco de sua história.
Os
estudos de folclore são parte de uma corrente de pensamento
mundial, cuja origem remonta à Europa da segunda metade do
século XIX. Ao mesmo tempo em que procuravam inovar, esses
estudos são herdeiros de duas tradições intelectuais
que se ocupavam anteriormente da pesquisa do popular: os Antiquários
e o Romantismo.
Os
Antiquários são os autores dos primeiros escritos
que, nos séculos XVII e XVIII, retratam os costumes populares.
Colecionam e classificam objetos e informações por
diletantismo, e acreditam que o popular é essencialmente
bom.
O
Romantismo, poderosa corrente de idéias artísticas
e literárias, emerge no séc. XIX em associação
com os movimentos nacionalistas europeus. Em oposição
ao Iluminismo, caracterizado pelo elitismo, pela rejeição
à tradição e pela ênfase na razão,
o Romantismo valoriza a diferença e a particularidade, consagrando
o povo como objeto de interesse intelectual. O povo, para os intelectuais
românticos, é puro, simples, enraizado nas tradições
e no solo de sua região. O indivíduo está dissolvido
na comunidade.
A
trajetória dos estudos de folclore no Brasil mantém
relações com os debates do contexto intelectual europeu.
Essas duas tradições são incorporadas pelos
estudiosos brasileiros que procuram também conferir cientificidade
a seus trabalhos. Entre os pioneiros desses estudos no país,
estão autores como Silvio Romero (1851-1914), Amadeu Amaral
(1875-1929) e Mário de Andrade (1893-1945). Sílvio
Romero é célebre pelas coletas empreendidas na área
da literatura oral e pelo desejo, de origem positivista, de uma
visão mais científica e racional da vida popular.
Amadeu Amaral enfatiza a necessidade de uma coleta cuidadosa das
tradições populares, e empenha-se pelo desenvolvimento
de uma atuação política em prol do folclore,
visto como depositário da essência do "ser nacional".
Mário de Andrade procura conhecer e compreender o folclore
em estreito diálogo com as ciências humanas e sociais
então nascentes no pais. Para ele, o folclore, expressão
da nossa brasilidade, ocupa um lugar decisivo na formulação
de um ideal de cultura nacional.
A
década de 1950 transforma o patamar em que se encontravam
até então esses estudos. Ela marca o início
de uma ampla movimentação em torno do folclore reunindo
a sua volta nomes como Cecília Meireles, Câmara Cascudo,
Gilberto Freire, Artur Ramos, Manuel Diégues Júnior.
Institucionalmente,
essa movimentação é articulada pela Comissão
Nacional do Folclore, do Ministério do Exterior, e vinculada
à UNESCO (organismo da Organização das Nações
Unidas). A Comissão é liderada por Renato Almeida,
diplomata e estudioso da música popular. No contexto do pós-guerra,
a preocupação com o folclore enquadra-se na atuação
em prol da paz mundial. O folclore é visto como fator de
compreensão entre os povos, incentivando o respeito das diferenças
e permitindo a construção de identidades diferenciadas
entre nações que partilham de um mesmo contexto internacional.
O Brasil de então orgulhava-se de ser o primeiro país
a atender à recomendação internacional no sentido
da criação de uma comissão para tratar do assunto.
O
conjunto das iniciativas desenvolvidas era designado pelo nome de
Movimento Folclórico. A Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro
(CDFB), criada em 1958 no então Ministério da Educação
e Cultura, é o apogeu dessa movimentação.
A
Campanha é um organismo nacional destinado a "defender
o patrimônio folclórico do Brasil e a proteger as artes
populares". Ela traz uma proposta de atuação
urgente: no folclore se encontram os elementos culturais autênticos
da nação, porém o avanço da industrialização
e a modernização da sociedade representam uma séria
ameaça. Por essa razão, a cultura folk deve ser intensamente
divulgada e preservada.
A
Campanha participa dos debates intelectuais do país em intercâmbio
com as ciências sociais que se institucionalizam no mesmo
período. Fomenta pesquisas sobre o folclore em diferentes
regiões, bem como sua documentação e difusão
através da constituição de acervos sonoros,
museológicos e bibliográficos. Data dessa época
o embrião do que viria a ser mais tarde o Museu de Folclore
Edison Carneiro e a Biblioteca Amadeu Amaral do atual Centro Nacional
de Folclore Cultura Popular.
De
lá para cá, os processos de modernização
da sociedade se aprofundaram, a televisão entrou decisivamente
no cotidiano nacional, e ao contrário do que supunha a Campanha
em seus primórdios, o folclore não acabou. O país
transformou-se econômica e politicamente. Mudaram também
os ideais de conhecimento. Como já diziam alguns folcloristas,
o folclore nasce e cresce também nas cidades: é dinâmico,
transforma-se o tempo todo, incorporando novos elementos. O campo
dos estudos de folclore transforma-se também acompanhando
a evolução do conhecimento no conjunto das ciências
humanas e sociais. A noção de cultura não é
mais entendida como um conjunto de comportamentos concretos mas
sim como significados permanentemente atribuídos. Uma peça
de cerâmica é mais do que o material de que é
feita, e a técnica com que é trabalhada. Uma festa
é mais do que a sua data, suas danças, seus trajes
e suas comidas típicas. Elas são o veículo
de uma visão de mundo, de um conjunto particular e dinâmico
de relações humanas e sociais. Não há
também fronteiras rígidas entre a cultura popular
e a cultura erudita: elas comunicam-se permanentemente. O compositor
erudito Heitor Villa Lobos reelaborou musicalmente cantigas de ninar
tradicionais. Muito freqüentemente, o enredo do desfile carnavalesco
de uma escola de samba elabora numa outra linguagem temas eruditos.
Na condição de fato cultural, o folclore passa a ser
compreendido dentro do contexto de relações em que
se situa.
Essa
abordagem contextualizadora, que faz do objeto um veículo
de relações humanas, é a proposta do Museu
de Folclore Edison Carneiro cuja exposição permanente,
inaugurada em 1994, se pretende uma pequena mostra do que está
vivo e se transformando no dia-a-dia.
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