| O
Programa Educação e Trabalho
"O
Programa "Educação e Trabalho" enfrenta
três desafios: i- desenvolver uma proposta
educativa inovadora capaz de estimular
competências, qualidades pessoais e valores éticos,
ii- incentivar através de novas metodologias a
produtividade, a iniciativa, a aprendizagem com
autonomia para que o adolescente possa gerir o seu desenvolvimento
pessoal e profissional, iii- o terceiro
grande desafio é formar cidadãos."
Iolanda Silva
Antecedentes
O "Educação
e Trabalho" surge como um programa educacional dedicado a um
segmento da sociedade que "nunca entra em museus": adolescentes
de rua do Rio de Janeiro.
Concebido
através da Fundação Nacional Promemória,
atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional - IPHAN, sua proposta inicial foi oferecer treinamento
e atividades que não requerem educação formal
como pré-requisito.
Inspirado
em iniciativas pioneiras do Museu de Belas Artes, que remontam a
1985, o trabalho foi sendo estendido a outros museus e casa históricas
da rede governamental.
Formalizado em 1989, o "Educação e Trabalho"
realizou até o momento dezenas de cursos que, além
de visar a iniciação profissional, buscam o desenvolvimento
integral do adolescente e a sensibilização sobre a
importância do patrimônio histórico.
Mas,
como indicam duas das articuladoras do programa, Iolanda Silva e
Marta Rothman, "... o percurso da experiência comparte
os avanços e retrocessos, os conflitos e contradições,
os dilemas e problemas que caracterizam a permanente tensão
instituído-instituinte que rege e dá vida à
sociedade global".
Atualmente,
o Programa possui alguns desdobramentos, mas permanece fiel ao intuito
de buscar "atender às necessidades culturais de todas
as camadas da população" e "estender seu
campo de atuação às camadas sociais que permanecem
excluídas dos bens culturais".
O
escopo do programa
Os
cursos são a ênfase do Programa. Já foram realizados
cursos de jardinagem, informática, empalhamento, confecção
de bijuterias, montagem de exposições e preservação
de mobiliário.
O objetivo
dos cursos é a pré-profissionalização
de adolescentes que têm ficado à margem das políticas
culturais, em áreas pouco exploradas e com falta de mão-de-obra
especializada. Mas, além disso, objetiva-se, fundamentalmente,
construir e fortalecer nos participantes a "auto-estima, buscando
o autoconhecimento e o exercício dos direitos e deveres,
de modo a facilitar sua inserção na coletividade e
a percepção de cada um como agente de transformação
social, consciente de seus próprios limites e responsabilidades".
Os
alunos são selecionados entre jovens de classes populares,
entre 16 e 19 anos. Esses adolescentes assistem quatro horas diárias
de aulas, recebem almoço, vale-transporte, bolsa-auxílio,
atendimento quanto à saúde física (exames,
educação sobre doenças sexualmente transmissíveis
e noções de higiene) e, quando necessário,
encaminhamento para atendimento psicoterápico.
Para
tanto, são fundamentais as parcerias com instituições
e empresas. Dentre elas, destacam-se: Cruzada do Menor, Ação
Comunitária do Brasil, Comunidade Solidária, Instituto
de Pesquisas do Jardim Botânico, Serviço Nacional de
Aprendizagem Rural, Juizado da Infância e da Adolescência,
Instituto C&A, Museu de Folclore Edison Carneiro, Conselho Tutelar,
Associação dos Antiquários, Médicos
Solidários, Posto de Saúde do Catete e New Bijoux.
Em
pouco mais de 10 anos, foram 46 cursos que atenderam 669 adolescentes,
dos quais 563 finalizaram os cursos. Outras informações
valiosas podem ser encontradas na entrevista que realizamos com
a Coordenadora do Programa, Iolanda Silva, e com a Diretora do Museu,
Anelise Pacheco, e que mostra como o trabalho é centrado
no desenvolvimento do ser humano como pessoa, suas descobertas,
seus anseios, seus sonhos e suas possibilidades.
Um
dia no Programa
O contato
com os pais e familiares dos participantes é parte integrante
dos cursos, mas o dia 07 de julho de 2001 foi dedicado não
apenas a esse objetivo. Além dos pais, todo o público
foi convidado para presenciar alguns dos resultados do Programa.
Nos
jardins do Museu foram apresentados os trabalhos desenvolvidos pelos
integrantes de três cursos: "D + da Conta", "Traços
da Arte" e "Plantar&Colher".
Além
da exibição do trabalho ao público, os alunos
participantes do projeto ensinaram o que estão aprendendo
através de oficinas, venderam seus produtos e trocaram experiências.
A presença
de pais, do Conselho Tutelar da Zona Sul, dos adolescentes e do
público em geral foi de grande valor para a realização
dessa ação, que enfocava principalmente a apresentação
do trabalho desses adolescentes.
Conversamos
com a aluna Daniele, de 17 anos, que cursa o D + da Conta. Em seu
depoimento, disse estar muito feliz, pois acredita que o curso capacita
os alunos para o mercado de trabalho. Para ela, o que mais chama
a atenção no projeto é a "capacidade dos
professores".
Sheila
Fonseca, do Conselho Tutelar da Zona Sul, aponta a importância
do Programa no auxílio à garantia dos direitos da
criança e do adolescente. Para Sheila, "no Museu da
República, que é um dos parceiros histórico
do Conselho, o adolescente é encaminhado para os cursos profissionalizantes
visando sua retirada de uma situação de desesperança,
proporcionando-lhe uma atividade educacional e de vida, buscando
garantir o seu direito à profissionalização
e até uma perspectiva de se enquadrar no mercado de trabalho".
O aluno
Júlio César, do curso Traços da Arte, nos explicou,
com orgulho, que o ofício de empalhador é essencialmente
artístico. O curso tem a duração de 10 meses,
mas após apenas quatro meses os alunos já iniciam
o estágio: Júlio que está empalhando a sua
própria cadeira e enquanto nos mostrava seu trabalho, enumerou
os motivos de sua satisfação com o curso. Primeiro,
para Júlio César, o Programa "preencheu espaços
vazios". Em segundo lugar, propiciou novos amigos. Mas o terceiro
motivo é o mais importante: ele está ajudando a resgatar
a arte de empalhador, que está correndo o risco de extinção
em nosso país.
O professor
Jackson, do curso Traços da Arte, reforça que "o
objetivo do curso de empalhador é resgatar uma profissão
que está quase extinta, buscar a conscientização
dos jovens sobre o valor que este ofício tem na história,
lembrando que os museus, antiquários e as casas de 'luxo'
têm sempre móveis de palha" e, assim, "buscar
a conscientização do valor artístico da profissão
de empalhador dentro do contexto do luxo e do belo". Para ele,
"... o trabalho com jovens traz um dinamismo autêntico,
pois vivencia-se realidades até então por vezes ignorada.
Trabalhar com jovens me retornou a idade, me fez conviver com situações
que eu já tinha deixado de experimentar. Eu ensino e aprendo:
é uma troca".
O curso
Criarte Biju será um reforço ao Programa e contará
com a participação de Márcia, que além
de trabalhar e ensinar artesanato com sementes atua como geógrafa
e pesquisadora. Seu interesse por esse tipo de trabalho começou
com a percepção da beleza e diversidade das sementes,
que no dia a dia nós não percebemos. Desse interesse
veio o estudo, e daí a decisão de dedicar-se ao artesanato
com sementes para a confecção de adornos como pulseira
e cordão. O curso previsto por Márcia para os adolescentes
terá quatro etapas: coleta das sementes, tratamento das sementes,
furação das sementes e montagem de adornos.
O professor
João Carlos desenvolve o trabalho no curso de Jardinagem,
cuja formação geral é feita no Museu e a parte
específica é desenvolvida no Jardim Botânico.
João Carlos observa que a demanda pelos profissionais de
jardinagem no mercado é muito grande. O programa tem acompanhado
alguns alunos que já se formaram e que estão empregados
e, desse acompanhamento, concluí o professor: "... há
um grande resgate da auto-estima". Além disso, lembra
que "... a jardinagem é considerada como uma atividade
terapêutica e facilita nossa intenção de desenvolver
a socialização dos jovens".
O curso
D + da Conta ensina a confecção de bijuterias. Ele
é desenvolvido pela professora Manna, que promove a inspiração
e o aprendizado dos alunos através de visitas a museus que
são ricos em objetos artesanais e da arte da bijuteria, como
o Museu do Índio e o Museu do Folclore. Além disso,
os alunos visitam a escola de jóias da H Stern, têm
acesso a lojas, a revistas de modas e contam com a presença
de uma estilista que, uma vez por semana, ministra aulas.
Todos
os cursos têm aulas de História e Geografia. Elas enfocam,
principalmente, patrimônios da cidade do Rio de Janeiro. Esses
locais, primeiramente estudados teoricamente, são, posteriormente,
visitados pelos alunos. Busca-se, com isso, enriquecer o conteúdo
através da vivência no local, harmonizar a teoria e
a prática, meio ambiente e conscientização
de pertencimento à cidade e ao seu destino. Esse projeto
ganhou o nome de "Rio que te quero bem".
O Programa
preocupa-se também com a formação básica
dos jovens através do processo de aprendizagem, denominado
Módulo Básico. São experimentada atividade
que estimulam a socialização, a auto-estima, a criatividade,
cidadania, etc, através de dinâmicas de grupo, palestras,
debates, vídeos, dramatização, textos, oficinas
temáticas, jogos, atividades físicas, visitas culturais.
O trabalho
segue o conceito das "Novas Diretrizes e Bases da Educação"
e os "Quatro Pilares da Educação de Bernardo
Toro - consideradas as bases da Educação pela UNESCO".
Sempre mediado pelas sete temáticas básicas: identidade,
integração, comunicação, grupo, sexualidade,
cidadania e projeto de vida.
Há
que se ressaltar que os trabalhos desenvolvidos na prática,
em todos os cursos, são apoiados por aulas de informática,
como uma ferramenta auxiliar. Para tanto, são ministradas
aulas, que possibilitam aos alunos acessarem a internet, criarem
e armazenarem seus próprios arquivos e manterem endereços
eletrônicos pessoais.
Nossa
impressão
É
um trabalho apaixonante, que envolve adolescentes, suas famílias
e suas perspectivas de um mundo melhor. Ao adolescente é
oferecida a oportunidade de melhor conhecer sua identidade, como
pessoa culturalmente situada. Isso reforça sua auto-estima,
amplia suas descobertas, seus anseios, seus sonhos e suas possibilidades.
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