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CONFLITOS
TERRITORIAIS NOS PARQUES ESTADUAIS DO DESENGANO, DA SERRA DA TIRIRICA
E DA ILHA GRANDE, RJ.i
Luiz Renato Vallejoii
(Departamento de Geografia,
Universidade Federal Fluminense, RJ)
O trabalho faz uma apreciação sobre
os conflitos territoriais em três parques estaduais no Rio
de Janeiro: Desengano, Serra da Tiririca e Ilha Grande. Os conflitos
territoriais estudados refletem a fragilidade administrativa dos
órgãos de governo e as políticas governamentais
adotadas para o setor. As deficiências de pessoal e bens materiais,
além do reduzido aporte de verbas, representam indicadores
da baixa importância política atribuída ao tema.
Mesmo com os recursos oriundos de medidas compensatórias
decorrentes da regulamentação do Sistema Nacional
de Unidades de Conservação (SNUC), não foram
equacionados os históricos problemas relacionados com a questão
fundiária dos parques. As unidades de conservação,
em geral, e os parques, em particular, ainda são interpretados
como entraves ao desenvolvimento e não como espaço
de oportunidades.
Em relação ao Parque Estadual do Desengano,
localizado no norte do estado, o aspecto mais polêmico envolve
a questão fundiária que se arrasta, sem solução
definitiva, desde a sua criação nos anos 70. A existência
de terras devolutas e de imóveis com multiplicidade de títulos
aquisitivos levantaram dúvidas sobre a legitimidade da incorporação
de tais imóveis ao domínio particular e também
quanto à exata indicação dos seus pretensos
proprietários. As pressões políticas de supostos
proprietários sempre prevaleceram em relação
aos interesses de conservação ambiental (Soffiati,
Neto, s/d). Um levantamento recente das áreas ocupadas no
perímetro do parque apontou 93 áreas na forma de pousadas,
residências de veraneio, moradias permanentes, estruturas
de suporte ao turismo, abandono e outros (FBCN, 2003). Os problemas
mais comuns na área do parque são: desmatamentos,
o extrativismo vegetal, a caça predatória, a pecuária
e o turismo, sem o devido planejamento.
No Parque Estadual da Serra da Tiririca também
foram observados problemas fundiários no entorno e dentro
da área do parque. Mesmo havendo um mapeamento parcial das
propriedades localizadas próximo aos seus limites, não
existem iniciativas e nem verbas alocadas para diagnosticar com
precisão e equacionar o problema fundiário. Existem
25 loteamentos no entorno do parque. A abertura de novas ruas de
acesso aos loteamentos e condomínios e as autorizações
de edificações concedidas pelos poderes municipais
e os desmatamentos, produziu vários conflitos entre o Instituto
Estadual de Florestas (IEF), as prefeituras, os empreendedores,
moradores e ONGs. Existem loteamentos que ocupam, total ou parcialmente,
as áreas do parque. Outros conflitos ocorreram por conta
de atividades de mineração, sendo que as mais importantes
foram interditadas depois de ampla mobilização popular
e ações civis públicas movidas por ONGs. Os
problemas mais comuns estão associados à ocupação
indiscriminada de seus limites e os riscos de deterioração
e contaminação biológica. A extração
de plantas e animais também preocupam, além das queimadas
e o turismo descontrolado (saturação de trilhas, erosão,
destruição da vegetação).
No Parque Estadual da Ilha Grande, os problemas
fundiários são menores, já que as terras na
Ilha Grande são devolutas. Mesmo assim, foram constatadas
posses e escrituras de propriedade supostamente falsificadas dentro
do perímetro do parque, já que este não se
encontra devidamente demarcado. Invasões e grilagens já
ocorreram e poderão se repetir no futuro. Com a intensificação
das atividades turísticas, principalmente após a desativação
do presídio em 1994, inúmeros conflitos vêm
se intensificando. Existe um certo desconhecimento da existência
do parque por parte dos turistas, já que a infraestrutura
administrativa é bastante precária. Além disso,
há um certo grau de rejeição por parte dos
moradores mais antigos em relação às restrições
de uso impostas pelo poder público através da administração
do parque e de outras unidades de conservação. Os
conflitos acontecem também por conta das diversas competências
(municipal, estadual e federal), que buscam estabelecer normas de
uso territorial, às vezes contraditórias. Os problemas
mais comuns estão associados aos grandes volumes de lixo
e esgotos sem tratamento (principalmente durante os períodos
de maior fluxo turístico), intensificação de
processos erosivos nas trilhas, introdução de espécies
que representam riscos à preservação da biodiversidade
dos ecossistemas insulares, desmatamentos e edificações
sem licenciamento ambiental.
Ao realizar uma análise mais ampla do problema,
observou-se que e criação dos três parques seguiu
uma orientação onde os instrumentos legais de controle
territorial são rígidos em relação ao
isolamento das áreas, mas não foram eficientes no
processo de integração e promoção do
desenvolvimento social. As realidades geográficas existentes
não foram estudadas e consideradas no processo de criação
e gestão das respectivas áreas. As normas legais não
se consolidaram em estruturas administrativas eficientes e os conflitos
de interesses foram acontecendo naturalmente. Muitos dos projetos
com objetivos de educação/integração
entre pessoas e parques tiveram origem em iniciativas não
governamentais, com a participação de ONGs e OSCIPs
na forma de denúncias, cobrança de medidas e, até
mesmo, na gestão direta dos espaços protegidos.
Os baixos investimentos em conservação
ambiental por parte dos governos fluminenses, indicam que a importância
política conferida ao tema é pequena. Algumas explicações
para o fato podem estar associadas a fatores como:
* prioridade para as atividades produtivas que
gerem dividendos políticos de curto prazo, ao contrário
das atividades de conservação ambiental, com perspectivas
de médio e longo prazos;
* prioridade para investimentos na área metropolitana do
estado que onde está concentrada a maior parte da população
fluminense;
* baixa divulgação e desconhecimento por parte do
público, em geral, sobre o papel e o valor das unidades
de conservação, o que não produz grandes
demandas sociais.
Referência bibliográfica
FBCN (2003_a) - Projeto de Consolidação
do Parque Estadual do Desengano. Relatório Final, P4 - Plano
Diretor. SEMADUR/IEF/FBCN. Patrocínio El Paso. 210 p.
Primo, P. B. S. (1993) - Parque Estadual do
Desengano: diagnóstico, problemas e soluções.
Projeto Terralerta. Defensores da Terra. 46 p.
Soffiati Neto, A. A. (s/d) - Parque Estadual
do Desengano: história, economia e sociedade. No prelo.
Vallejo, L.R. (2005) - Políticas públicas
e conservação ambiental: territorialidades em conflito
nos parques estaduais da Ilha Grande, da Serra da Tiririca e do
Desengano (RJ). Niterói, 288 p. Tese (Doutorado em Geografia)
Universidade Federal Fluminense.
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i Trabalho elaborado
com base em pesquisa de doutorado do Programa de Pós-Graduação
em Geografia da UFF (2002-2005)
iiProf. Adjunto
do Departamento de Geografia da UFF, Doutor e Mestre em Geografia,
Bacharel em Ecologia
e-mail: lrvallejo@bol.com.br.
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