| ÁREA
DE PROTEÇÃO AMBIENTAL DO ENGENHO PEQUENO: REFLEXÕES
SOBRE A NECESSIDADE DE DESCENTRALIZAÇÃO DA GESTÃO
PÚBLICA.
Cláudia Ribeiro Barbosa
(Centro de Educação Ambiental Protetores da Vida)
Joelma Cavalcante de Souza
(Centro de Educação Ambiental Protetores da Vida)
Contexto do trabalho
e justificativa
O município de São Gonçalo,
localizado na Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro,
apresenta um percentual muito reduzido de áreas verdes, especialmente,
quando pensarmos nos seus 248,7 km2 de território. Este percentual,
menos de 10% da área geográfica municipal, pode ser
traduzido cenicamente por uma orla composta, essencialmente, pelos
manguezais integrantes da Área de Proteção
Ambiental de Guapimirim e por duas unidades de conservação
da natureza próprias: o Parque Natural Municipal do Engenheiro
Pequeno e a Área de Proteção Ambiental do Engenheiro
Pequeno. Esses fragmentos florestais associados ao bioma Mata Atlântica
contribuem para a manutenção de serviços ecossistêmicos
essenciais. Os manguezais são importantes para reprodução
de espécies marinhas e para o equilíbrio físico-quimico
da Baía de Guanabara. Em escala municipal, as unidades de
conservação supracitadas desempenham os seguintes
papeis: estabilização do micro-clima local; proteção
e manutenção das nascentes dos rios: Imboaçu,
Alcântara, Brandoas e das Pedras; abrigo de fauna; etc. Além
dos atributos de cunho ecológico, essas unidades configuram-se
enquanto espaços públicos propícios a prática
de recreação e lazer. Por fim, reitera-se que esses
espaços naturais protegidos representam os únicos
remanescentes significativos da Floresta Atlântica existentes
em São Gonçalo.
As áreas protegidas em São Gonçalo
encontram-se continuamente pressionadas por ações
humanas. Na realidade, o que ocorre é a apropriação/intervenção
inadequada por parte da população que por desconhecimento
da legislação vigente ou da importância socioambiental
de tais espaços, não se sente compromissada com sua
preservação. Entre os problemas presentes nas áreas
supracitadas destacamos: extração vegetal; caça
predatória; aterros e ocupação irregular; especulação
imobiliária; despejo de lixo; aumento de espaços destinados
ao depósito de sucatas, incêndios e resíduos
de oferendas religiosas. Nesse sentido, reitera-se a urgência
em se criar alternativas e soluções para lidar com
os problemas socioambientais a que estas áreas estão
expostas, pois os mesmos. Tais problemas acabam por produzir e/ou
acirrar ainda mais outros conflitos
Nesse ensaio utilizaremos como recorte a Área
de Proteção Ambiental do Engenho Pequeno e Morro do
Castro, criada em 19 de julho de 1991, através do Decreto
Municipal n.º 054/91. Tal ação visou a preservação
as ultimas reservas de matas existentes nas proximidades das áreas
urbanas mais densamente habitadas de São Gonçalo.
Todavia, apesar da relevância deste espaço para o município,
motivo que originou a sua criação, a APA não
apresenta um ordenamento territorial, com base em um Plano de Manejo,
que estabeleça normas de uso e ocupação do
solo orientado para uso sustentável de seus recursos. A transformação
de remanescentes de Mata Atlântica, na sua grande maioria,
em estágio de sucessão terciária, objetivou
não só a proteção dessas áreas
florestadas como também aceitar o desafio de um novo modelo
de gestão, procurando harmonizar a conservação
e a recuperação ambiental e as necessidades humanas.
A demarcação efetiva da área
da APA só aconteceu no ano de 2003, fazendo com que o local
sofresse enorme pressões sociais visando a ocupação
irregular de sua área de domínio. Com isso, outras
pressões são desencadeadas como desmatamento, criação
de animais, canalização de rios etc.
Com a instauração do Conselho Gestor
em 2003 acreditava-se que a busca para resolução dos
problemas apresentados neste documento seria feita de forma mais
ágil. No entanto, o que se observou é que a explicitação
dos mesmos aflorou outros conflitos e potencializou a dificuldade
em se lidar com a "coisa" pública, ainda mais se
este bem é um bem natural, usufruto de todos.
Objetivos
1. Ressaltar a importância da participação
social nos processos de gestão de áreas naturais protegidas.
2. Apresentar a APA do Engenho Pequeno enquanto palco de consensos
e dissensos no gerenciamento do espaço publico.
Metodologia
A presente investigação utilizou como
diretriz metodológica a realização de entrevistas
com atores locais, a participação em eventos e reuniões
promovidas pela Prefeitura na APA e em leituras específicas
e na análise de documentos legais.
Reflexões Centrais para Políticas
Públicas
A apresentação da APA do Engenho Pequeno
enquanto cenário de conflitos tem como objetivo evidenciar
o despreparo da sociedade na consolidação de uma gestão
social. Apesar de vivermos em plena democracia, vivenciamos na atualidade
o que poderíamos classificar, utilizando-nos da nomenclatura
apresentada por Pedro Demo, de "cidadania pequena". A
idéia participação, apesar de estar mais difundida
entre todos nós ainda enfrenta inúmeras barreias.
O discurso social incorpora a todo momento palavras como direitos
e deveres, cidadania, participação, gestão
democrática mas para algumas realidades municipais esses
termos se traduzem em um discurso vazio. São apenas palavras.
No caso específico desta APA observamos a presença
do Poder Publico na co-gestão desta unidade de conservação,
observamos também poucos membros da comunidade presentes,
porém a gestão ocorre por direito e não de
fato. Isso se deve a inúmeras condicionantes: a centralização
do Poder Publico; o despreparo institucional para o enfrentamento
de conflitos; o enraizamento do clientelismo; a deficiência
de informações de qualidade e atualizadas; a descontinuidade
do poder público; a incipiente estrutura econômica
dos envolvidos e vários outros fatores.
Isto posto, é necessário que o Poder
Publico reavalie o modo como vem conduzindo as políticas
públicas. Para tal, é fundamental delegar responsabilidades,
cientes de seu papel social e de funções enquanto
gestor. Porém, cabe a esta instancia de poder estabelecer
canais que estimulem a participação das comunidades
diretamente abrangidas por unidades de conservação.
Na verdade, o que pleiteamos é um modelo de desenvolvimento
local que tenha como meta o envolvimento, o empoderamento, o compartilhamento
de responsabilidades e o compromisso com o bem comum.
Referências Bibliográficas
ABREU, Antônio Izaías da Costa. Municípios
e Topônimos Fluminenses: Histórico e Memória.
Niterói: Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 1994.
Claudia Ribeiro Barbosa: barbosa-cr@uol.com.br
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