| RESERVA
BIOLÓGICA DO TINGUÁ: RELATO DE UMA TENTATIVA DE GESTÃO
COMPARTILHADA
Joelma Cavalcante de Souza (Engenheira
Florestal)
Contexto do trabalho e justificativa
A Reserva Biológica do Tinguá compõe,
atualmente, um dos mais importantes fragmentos de Floresta Atlântica
do Estado do Rio de Janeiro. Em seus 26.260 hectares, encontramos
uma exuberante flora, resguardada provavelmente, em conseqüência
de sua inacessibilidade topográfica. Além de importantes
espécimes florestais, como por exemplo o tapinhoã
(Mezilaurus navalium), um tipo de canela considerada rara, a reserva
abriga um patrimônio faunístico significativo. Neste
sentido, poderíamos citar exemplares de macucos (Tinamus
solitarius), tucanos de peito amarelo (Ramphastos vittelinus), pavós
(Pyroderus scutatus) etc. A avifauna local reforça a importância
deste espaço para a garantia de processos relacionados à
dispersão de sementes, fenômenos de migração
e reprodução de aves, manutenção de
cadeias alimentares e/ou serviços ecológicos que,
de alguma maneira, favorecem a coexistência de outras espécies.
A reserva abriga exemplares importantes de primatas, roedores, mamíferos
etc.
Outro aspecto relevante da REBIO para o território
fluminense como um todo, é oriundo de seu potencial hídrico.
As Serras do Tinguá, do Macuco e do Couto servem como divisores
de águas de duas bacias hidrográficas. A bacia a ocidente
abastece o rio Guandu e deságua na Baía de Sepetiba,
e a bacia a oriente abastece o rio Iguaçu e deságua
na Baía de Guanabara. Na região do Tinguá existem
sete microbacias responsáveis pela captação
da água que contribui para abastecimento de Duque de Caxias
e Nova Iguaçu, e, parcialmente, de Nilópolis e São
João de Meriti.
Por fim, ressaltamos que o patrimônio do Tinguá
vai além de seus atributos naturais. A história nos
relata que a Serra do Tinguá e os demais lugarejos situados
nas proximidades da Floresta Atlântica foram caminho de tropeiros
que traziam ouro e pedras preciosas para o embarque no porto da
cidade do Rio de Janeiro. O percurso conhecido como o "Caminho
do Ouro" compreendia um trecho de 18 Km, que cortava a região
serrana. A construção da estrada de ferro Rio D'Ouro,
também se inclui nesse legado histórico pois a mesma
foi projetada para garantir de parte do abastecimento de água
da cidade do Rio de Janeiro. Na área de entorno da REBIO,
encontramos as ruínas da Freguesia de Santana das Palmeiras,
da fazenda São Bernardino e dos cemitérios dos nobres
e dos escravos.
O contexto apresentado nos remete a importância
desta reserva não somente para os municípios que integram
a sua área de domínio mas para todo o Estado do Rio
de Janeiro.No entanto, o gerenciamento de espaços protegidos,
em especial a REBIO do Tinguá, não deve considerar
somente seus atributos cênicos-naturais ou sua importância
histórica mas principalmente criar estratégias para
a inclusão da participação social, de fato,
em sua gestão.
Objetivos
1. Apresentar uma experiência de tentativa
de co-gestão para a REBIO do Tinguá.
2. Contribuir na discussão sobre o gerenciamento participativo
em unidades de conservação.
Metodologia
Este trabalho fez parte de diferentes projetos de
pesquisa, realizados no período de 2001 a 2004, objetivando
a obtenção do grau de Especialista em Planejamento
Urbano pelo IPPUR/UFRJ e do grau de Mestre em Pesquisa Social e
Amostragem pela ENCE/IBGE. A metodologia adotada valeu-se de pesquisas
documentais, entrevistas e visitas de campo.
Reflexões Centrais para Políticas
Públicas
A gestão socioambiental pressupõe o
envolvimento e empoderamento de diferentes atores sociais frente
aos problemas e vulnerabilidades comuns à sociedade contemporânea.
A REBIO experimentou, em 1998, uma tentativa de co-gestão,
envolvendo três segmentos sociais: o IBAMA, as prefeituras
municipais compõem a área de domínio da reserva
e a sociedade civil organizada. Esta proposta de gestão surgiu
em janeiro de 1998, a partir da E.R.H.E.N. - Equipe de Resgate Histórico
Ecológico Nacional, em Nova Iguaçu. Esta ONGs acionou
três ONGs: o Grupo de Defesa da Natureza e a FICUS, ambas
em Nova Iguaçu, e a Ranger Gassi, de Duque de Caxias. Formava-se,
então, o embrião da Comissão de Entidades para
Preservação da Reserva Biológica do Tinguá
ou, como é vulgarmente conhecida, Com-Rebio do Tinguá.
A partir daí, iniciou-se o processo de convocação
de outras instituições atuantes na área de
domínio da REBIO, formando-se um fórum de ONGs com
uma meta em comum: reunir entidades socioambientais para atuação
na área de domínio da REBIO. Em menos de seis meses,
a Com-Rebio já apresentava mais de 45 organizações
cadastradas. No entanto, este processo gerou ganhos e perdas que
se refletiram tanto individualmente/participante como coletivamente/instituição.
Um dos ganhos importantes foi à projeção institucional
das entidades que compõem a Com-Rebio; como perda elencaríamos
a dificuldade de implementar, de fato, o processo de gestão
democrática. Esta experiência não obteve êxito
junto ao IBAMA e não foi suficientemente democrática
na escolha das entidades que comporiam à comissão,
gerando conflitos internos e externos à comissão.
A proposta de participação social endossada
pelo SNUC se torna muito frágil em unidades de proteção
integral, pois, o próprio IBAMA ainda está se adequando
a idéia. No caso do Tinguá percebíamos posturas
centralizadoras da administração e que enalteciam
o conhecimento técnico-cientifico.
Poderíamos dizer que somada a essa "territorialização"
do espaço protegido, existe uma hierarquização
de papéis e uma subordinação de poderes muito
presente no IBAMA. Estabelecendo, neste sentido, uma demarcação
própria do espaço que vai além da simples mensuração
de seus limites físicos. Definem-se, claramente, territórios
dentro de um único território. O discurso do IBAMA
mostrou-se tanto mais democrático quanto mais fora estava
dos limites da reserva.
A dificuldade em negociar clara e democraticamente
com o IBAMA acrescido de fatores como: pouca maturidade das ONGs
envolvidas; ciúmes e vaidades pessoais exacerbadas; falta
de recursos e dificuldade na definição de papéis
fizeram com que esta iniciativa entrasse em estágio de dormência.
As prefeituras municipais envolvidas aturam quase
que imperceptivelmente, participando, somente, quando politicamente
era conveniente.
Esta experiência evidencia a necessidade de
"ampliarmos os canais" de diálogo no processo participativo.
Para tal tanto o Poder Público como a Sociedade devem estar
preparadas para as responsabilidades advindas deste processo.
Referências bibliográficas
CORREIO DA LAVOURA. Reserva Biológica do Tinguá.
Rio de Janeiro: Correio da Lavoura, 2001.
SARACURA, Valéria Fernanda. Reserva Biológica
do Tinguá. Brasília: IBAMA, 1995.
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Joelma Cavalcante de Souza - joelma_souza2001@yahoo.com.br Euclides
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