| FORTALECIMENTO
DA GESTÃO PARTICIPATIVA NA APA SERRA DA MANTIQUEIRA: O PAPEL
DOS JOVENS PESQUISADORES
Karla Oddone Ribeiro (Fundação
Matutu),
Isabel de Andrade Pinto (Consultora),
Marcos Affonso Ortiz Gomes (Participe- Associação
Brasileira de Promoção à Participação)
Contexto do trabalho e justificativa
Este trabalho relata a experiência de envolvimento
de estudantes do ensino médio como protagonistas na realização
de um diagnóstico de percepção socioambiental
junto a moradores de 18 municípios da Área de Proteção
Ambiental (APA) Serra da Mantiqueira. A Serra da Mantiqueira é
uma das maiores e mais importantes cadeias montanhosas do sudeste
brasileiro, na qual convivem diversos atores sociais: agricultores
familiares, turistas, migrantes de origem urbana, empresários
e órgãos públicos. Integrando o corredor da
Serra do Mar, a Mantiqueira é considerada prioritária
para a conservação da Mata Atlântica e existem
na região diversas unidades de conservação
(UCs) de diferentes categorias. A maior delas é a APA Serra
da Mantiqueira: aproximadamente 400.000 hectares que abrangem parte
de 27 municípios dos estados de Minas Gerais, São
Paulo e Rio de Janeiro.
Apesar de ter sido criada em 1985 (Decreto Federal
91.304) somente a partir de 2000 começaram a ser dados passos
para efetiva implementação da APA. Entre outras ações,
foram realizadas em 2002 atividades fiscalizatórias truculentas
gerando mal estar junto as populações locais.
Nesse contexto, o processo de criação
do Conselho Consultivo da APA (CONAPAM), iniciado em 2003, foi abraçado
por atores sociais locais (especialmente moradores de origem urbana)
como uma oportunidade de influenciar mais diretamente na gestão
da UC. Um dos resultados dessa iniciativa foi a elaboração
e aprovação do projeto "Fortalecimento da Gestão
Participativa da APA Serra da Mantiqueira" atendendo ao edital
03/2003 do Fundo Nacional do Meio Ambiente.
Uma das premissas do projeto era de que a simples
criação de conselhos não garante a efetividade
de seu funcionamento como um espaço de diálogo e negociação
de conflitos socioambientais (MMA, 2004). A base teórica
reforçava a importância da reflexão e ação
local assim como do estabelecimento de relações de
confiança dentro do conselho e entre este e a população
da APA capazes de se materializar em ações coletivas
para a conservação da Mantiqueira. Nesse trabalho
descreve-se a implementação de uma das metas do projeto,
relativa à realização de uma caracterização
socioambiental participativa por jovens moradores da APA, que tinha
como objetivo embasar as ações do Conapam, além
de mobilizar mais pessoas para a gestão desta UC.
Objetivo
O objetivo deste trabalho é relatar e discutir
uma experiência de envolvimento de estudantes do ensino médio
de escolas públicas no processo de fortalecimento da gestão
participativa de uma unidade de conservação de uso
sustentável: a APA Serra da Mantiqueira. Estes jovens foram
agentes de pesquisa de uma caracterização socioambiental
participativa desta UC, realizada entre outubro e novembro de 2005.
Metodologia
Para a caracterização socioambiental
usou-se como base a metodologia de indicadores de bens e serviços
ambientais, adaptada do programa MAB da Unesco. Na pesquisa, estes
indicadores foram usados como temas geradores na reflexão
sobre a relação/ação homem-natureza
na Mantiqueira. Acredita-se que a revisão desses bens provocou
a ampliação da visão sobre os valores gerados
nos ecossistemas locais, bem como estimulou a reflexão sobre
como eles estão sendo manejados.
A seleção dos jovens pesquisadores
foi estruturada através de três eventos micro-regionais
, dos quais participaram representantes de 21 escolas e 11 entidades
presentes no CONAPAM. O curso de capacitação dos jovens
pesquisadores envolveu 58 jovens e 15 professores representando
19 escolas e 18 municípios. As atividades de sensibilização
e facilitação da construção de conhecimento
enriqueceram o encontro e os jovens saíram bastante motivados.
Para realização da pesquisa, os jovens receberam uma
bolsa auxílio de R$ 100,00.
A análise dos resultados foi feita de forma
coletiva, como estratégia de construção coletiva
do conhecimento, mobilização social e prática
de participação. Primeiramente os resultados foram
analisados juntamente com os jovens, em visitas aos municípios.
Em um segundo momento, foram feitos três encontros regionais
com para analisar os resultados da pesquisa e levantar prioridades
para o CONAPAM. No total destes encontros, participaram cerca de
300 pessoas da sociedade civil e poder público (Silva et
al, 2004). Estas demandas foram levadas ao CONAPAM para embasar
seu plano de ação.
Reflexões Centrais para Políticas
Públicas
A busca pela mudança de paradigma na criação
e gestão das UCs é uma das grandes inovações
trazidas atualmente pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação,
que pretende de alguma maneira articular um dos paradigmas socioambientais
fundamentais: a relação entre biodiversidade e sociodiversidade.
Entretanto, estabelecer uma nova forma de ver as UCs pelas populações
locais, de maneira que estas se sintam motivadas e empoderadas a
participar de sua conservação, exige um trabalho fundamental
na criação de laços de confiança entre
os diversos atores em cena, relações estas muitas
vezes já abaladas por históricos de autoritarismo
na criação e gestão das UCs.
Neste sentido, os conselhos gestores podem ter o
importante papel de servirem como espaços de contato direto
entre os diversos atores, o que é indispensável para
a ampliação destas redes de confiança. Entretanto,
especialmente em grandes UCs, como é o caso da APA Mantiqueira,
é preciso que esta rede se estenda além dos conselhos,
espacialmente, às diversas localidades e culturalmente, às
diversas formas de vida e linguagens presentes nos territórios,
o que nos remete à questões de representatividade.
O trabalho em conjunto com as escolas da Mantiqueira se mostrou
bastante relevante na ampliação do conhecimento sobre
o CONAPAM e no processo de tradução às diversas
realidades presentes nesta UC. Ainda, a forma com estes jovens foram
envolvidos no processo de fortalecimento do CONAPAM, como protagonistas
de um processo de reflexão da realidade sociambiental, se
mostrou bastante relevante à formação de lideranças
socioambientais entre estes estudantes. A partir desta experiência,
defende-se a importância da inclusão - de forma participativa
e reflexiva - de estudantes em políticas e ações
que visem favorecer uma nova maneira de criar e gerir as UCs brasileiras.
Referências Bibliográficas
MMA. Áreas protegidas do Brasil. gestão
Participativa do SNUC. Brasília, 2004. v. 2.
SILVA, B. G. da, PINTO, I. de A.; RIBEIRO, K. O.
Relatório preliminar: caracterização socioambiental
da Mantiqueira. 2004. Mimeografado.
Karla Oddone Ribeiro: karlaoribeiro@yahoo.com.br
R. Prof. José Marcos da Motta, 133, 37440-000 Caxambu, MG
|