| A DISSOCIAÇÃO
COMO ENTRAVE À PARTICIPAÇÃO NA GESTÃO
DAS ÁREAS PROTEGIDAS DA SERRA DA MANTIQUEIRA.
Isabel de Andrade Pinto (Valor
Natural);
Joana Pires Luiz da Costa (Centro Comunitário Rural da Colina)
Contexto
O presente trabalho apresenta uma visão subjetiva
sobre a relação entre as pessoas envolvidas com iniciativas
de participação social na gestão das áreas
protegidas da Serra da Mantiqueira.
Localizada próxima aos grandes centros urbanos do sudeste
do país, a Mantiqueira guarda áreas de florestas que
representam um recurso cada vez mais escasso e, portanto, de maior
valor. Regionalmente, a valorização da natureza se
reflete na criação de unidades de conservação
(UCs), no fluxo crescente de pessoas de origem urbana, e no apoio
a projetos socioambientais.
Boa parte do território enquadra-se em uma
ou mais das seguintes situações:
a) é Área de Preservação
Permanente (APP);
b) está dentro da Área de Proteção
Ambiental (APA) Serra da Mantiqueira;
c) está no entorno das UCs de proteção integral:
Parque Nacional do Itatiaia (PNI) e Parque Estadual da Serra do
Papagaio (PESP);
d) está dentro dos parques (o PNI possui 36% de sua área
regularizada e o PESP, apenas 3%).
Paradoxalmente, o valor para conservação
da Mantiqueira reflete também as dificuldades históricas
da população rural mais empobrecida. A ocupação
extrativista do ambiente montanhoso, iniciada com os bandeirantes,
culminou no esgotamento da fertilidade dos solos e numa pecuária
leiteira de baixa produtividade, levando ao abandono de atividades
produtivas e conseqüente regeneração das matas.
Os produtores rurais encontram-se esmagados entre
um horizonte de baixo potencial econômico - a forma tradicional
de uso do solo - e as restrições impostas pela legislação
ambiental. As relações políticas municipais,
especialmente nos municípios mineiros do entorno das UCs,
apresentam-se paternalistas e com visão desenvolvimentista
.
De forma geral, as pessoas de origem urbana apresentam
discurso conservacionista, muitas vezes em oposição
às formas tradicionais de uso do solo, ou, em outras vezes,
defendendo (até ingenuamente) a "tradicionalidade"
da população rural. No entanto, muitas dessas pessoas
também se incomodam com as limitações impostas
pela legislação ambiental, quando ferem suas necessidades
e interesses particulares, assumindo posturas de antagonismo aos
órgãos ambientais.
Finalmente, os gestores locais das UCs encontram-se
limitados em sua atuação tanto pela falta de recursos
materiais e humanos, como pela dificuldade na implementação
de diretrizes que chegam através dos canais hierárquicos
institucionais (IBAMA e IEF-MG).
É nesse complexo contexto social, aqui apenas
pincelado, que foram criados os conselhos gestores das UCs da Mantiqueira
atendendo às diretrizes do Sistema Nacional de Unidades de
Conservação (SNUC). Tanto na formação
do Conselho Consultivo da APA Serra da Mantiqueira (CONAPAM) como
no recém formado Conselho Consultivo do PESP, houve conflitos
e disputas por cadeiras por parte dos diversos atores sociais (a
maioria de origem urbana).
Enquanto no caso do CONAPAM, os conflitos se evidenciaram
principalmente entre sociedade civil e IBAMA, no caso do Conselho
do PESP foram acirrados os conflitos entre organizações
não-governamentais e entre essas e o IEF-MG. Diversos fatores
contribuem para essa problemática entre os quais destaca-se
a falta de regularização fundiária e de clareza
em relação aos limites do PESP.
Outro exemplo do cotidiano se refere a um projeto
de integração entre 60 jovens de 5 comunidades rurais
que, mesmo tendo recursos para sua continuidade, está parado
há dois anos devido aos conflitos entre as organizações
locais (todas envolvidas com os conselhos acima citados).
É a partir desse marco vivencial que consideramos
a dualidade internalizada e reproduzida por nós, pessoas,
como um dos principais entraves à prática da participação
na gestão das áreas protegidas da Mantiqueira. Não
pela existência dos conflitos em si, mas pelas atitudes auto-afirmativas,
excludentes e de boicote, evidenciando a intolerância com
relação ao que se diferencia de nossas convicções
pessoais, muitas vezes completamente subjetivas.
Partimos da premissa de que o nível "participa"
da ação é subjetivo e acontece nas relações
- nos diversos telefonemas, emails, reuniões, encontros casuais
do cotidiano e, inclusive (por que não?) nas "fofocas"
- que formam as redes de pessoas. No entanto, a visão integrativa
que se subentende na formação de redes não
é internalizada pelos seus componentes uma vez que apresentamos
uma postura dissociativa (não-integrativa) nas relações
interpessoais.
Reflexões Centrais para Políticas
Públicas
A partir da máxima "pense globalmente
e aja localmente", tão repetida como meio de se alcançar
uma prática sustentável, é possível
refletir sobre a profunda dissociação entre o global
e o local assim como entre o pensar e o agir. O potencial humano
da Mantiqueira é imenso, haja vista a mobilização
gerada a partir da formação dos conselhos gestores,
mas vem se perdendo em meio a disputas por um poder de decisão
(o pensar global) dissociado da ação (o agir local).
Essa dissociação pode ser vista, por
exemplo, no desejo frustrado de professores da rede pública
de ensino de criar uma disciplina de educação ambiental.
Por mais bem intencionada que seja a restrição da
legislação, no sentido de induzir a transdisciplinaridade
na prática da educação ambiental, essa vai
de encontro à prática cotidiana dos agentes executores
da ação, devido à estrutura compartimentada
e burocrática dos sistemas de ensino.
Já no contexto das restrições
impostas pela legislação ambiental, faz-se necessária
a criação de mecanismos que facilitem a flexibilização
e/ou mudanças na legislação a partir de uma
construção local/global de alternativas sustentáveis
de ocupação e uso do solo, especialmente em relação
às Áreas de Preservação Permanente e
à regularização fundiária das UCs de
Proteção Integral.
Numa compreensão integrativa do universo,
qualquer pequena ação local é em si mesma uma
ação global e vice-versa. Da mesma forma, podemos
considerar que a saúde do ser humano - e conseqüentemente
das relações interpessoais - passa pela integração
entre pensamento, sentimento e ação.
É nesse nível que consideramos que
a prática da participação na gestão
das UCs da Mantiqueira demanda processos de aprendizagem através
da ação - partindo da humildade de que são
práticas a serem aprendidas - onde as regras sejam construídas
coletivamente e tendo como base a valorização do potencial
decisório dos agentes executores da ação.
Essa compreensão inclusiva da vida implica
em uma abertura para a indeterminação em que, muitas
vezes, perdemos individualmente o controle do futuro (poder ilusório)
e nos posicionamos de forma aberta às relações
com o próximo e dedicados a nutrir a rede (e não aos
pólos individuais) como maneira de alcançar o desenvolvimento
de que precisamos - que subentende nosso bem estar físico,
mental, emocional e espiritual.
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(Mestrado em Administração). Universidade Federal
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SILVA, B. S. G. da, PINTO, I. de A.; RIBEIRO, K.
O. (2004). Relatório Preliminar: Caracterização
Socioambiental da Serra da Mantiqueira (mimeo).
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Isabel de Andrade Pinto: isabel@valornatural.org.br,
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