Publicado em dezembro de 2005



Realização

Apoio

A PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA EM IBITIPOCA: UMA POSSIBILIDADE ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL?

Eloise Silveira Botelho
(Faculdade Estácio de Sá de Juiz de Fora)

Contexto do trabalho e justificativa

A partir do final do século XIX a humanidade passou por diversas transformações no contexto histórico, cultural, político e econômico que ainda trazem conseqüências para os dias de hoje.

A globalização é um dos processos que possibilitou muitas mudanças em todos esses contextos, chegando mesmo a criar uma nova sociedade, a sociedade de consumo. Porém, parte das transformações ocorridas se deram também a partir de uma maior - mas ainda insuficiente - sensibilização e conscientização da sociedade para a questão ambiental, em que a ciência e a tecnologia foram questionadas e alternativas de desenvolvimento passaram a ser estudadas e idealizadas (BERNARDES & FERREIRA, 2003).

A crise sócio-ambiental surgida a partir do século XX foi resultante do modelo de desenvolvimento adotado, fazendo com que diversos questionamentos acerca da questão ambiental fossem feitos pelos movimentos sociais.

Um dos frutos dessa crise é o fenômeno do turismo contemporâneo. A humanidade, vendo-se em uma situação emergencial perante as questões ambientais, tem buscado o reencontro com a natureza e com as origens, de modo que há uma "ressignificação" do meio ambiente natural (MOESCH, 2000).

Desta maneira, o segmento do turismo que mais tem crescido nos últimos anos é aquele relacionado ao lazer em áreas naturais.

Porém, quando o fenômeno turístico se dá ao sabor do mercado, com um foco primordialmente econômico e sem o engajamento eficaz dos sujeitos envolvidos no processo, a insustentabilidade é o principal resultado deste tipo de desenvolvimento, adotado pela maioria dos destinos (IRVING, 2002).

Observando as questões e percebendo o turismo em áreas naturais como um segmento em forte expansão, proponho apresentar uma pesquisa realizada para o Curso de Especialização em Educação Ambiental da UFJF, em que uma investigação qualitativa foi aplicada com os habitantes de Conceição de Ibitipoca, Minas Gerais. O trabalho proposto apresentará a abordagem teórico-metodológica que serviu como embasamento para a pesquisa em campo, bem como uma breve discussão a respeito dos resultados da investigação estabelecida com os moradores.

A localidade abriga a quarta unidade de conservação mais visitada do Brasil e nos últimos 10 anos, assistiu a um crescimento desordenado do turismo, fazendo com que a população se mantivesse desunida diante das questões ambientais e comunitárias.

Objetivos

O estudo realizado teve como objetivo investigar o modelo de desenvolvimento adotado pelos atores locais e como se dá a participação para a legitimidade desse desenvolvimento, em que o turismo é uma das atividades econômicas principais.

Metodologia

Com a concepção da pesquisa qualitativa, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com os representantes das principais instituições de Conceição de Ibitipoca (Gerente do Parque Estadual de Ibitipoca, líderes comunitários, presidente da Associação de Moradores e Amigos de Ibitipoca, Secretário de Turismo, Patrimônio Histórico-cultural e Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Lima Duarte e o Diretor da Escola Municipal local). A educação ambiental e a psicologia social comunitária serviram como norteadores teórico-metodológicos para a pesquisa qualitativa com os moradores locais.

Reflexões Centrais para Políticas Públicas

Para a realização da pesquisa, foram feitos alguns questionamentos: a participação democrática e a cidadania estão presentes nos sujeitos e nas relações, permitindo que os moradores de Ibitipoca constituam uma comunidade? Quais ações são desenvolvidas para a melhoria da qualidade de vida e para o desenvolvimento sustentável do turismo? Qual a percepção dos moradores para a questão ambiental e como eles constroem sua relação com a conservação do lugar?

Detectou-se que os principais problemas enfrentados pelos moradores da vila são relativos à falta de urbanização e à desconsideração com a conservação do patrimônio natural e histórico-cultural. Estas questões estão diretamente ligadas à percepção dos moradores para a questão ambiental e essa perspectiva reflete no modo como os atores locais agem - ou não - para a conservação do lugar. Além disso, esta situação traduz a ausência da implantação de políticas públicas que interfiram no processo turístico local.

Através dos relatos, concluo que o modo como o Parque Estadual de Ibitipoca, gerido pelo Instituto Estadual de Florestas, se estabeleceu e a pouca participação da comunidade neste processo são fatores que, em parte, contribuíram para o surgimento destes problemas. A desvalorização do saber-fazer local, a pouca oportunidade sócio-econômica para todos e a desunião são fatores conseqüentes deste distanciamento entre moradores e turismo, permitindo que se questione o real benefício da atividade para os habitantes locais e, ainda, até que ponto há a inserção dos sujeitos locais no processo de desenvolvimento.

Apesar destas importantes questões apontadas, reconheço que Conceição de Ibitipoca possui, atualmente, importantes iniciativas no que dizem respeito à organização comunitária. As novas iniciativas transcendem a Associação de Moradores e Amigos de Ibitipoca (Conselho do Parque Estadual de Ibitipoca, Teatro "Mãos à Obra" e Meninas Amigas de Ibitipoca) e permitem visualizar uma nova perspectiva e novos valores.

Assim, a participação local para a legitimidade do desenvolvimento está abrindo seu espaço dentro das diversas dificuldades encontradas, embora ainda haja necessidade de trabalhar, através da educação ambiental, algumas mudanças no que tange à conservação ambiental e à organização e planejamento do turismo de base comunitária, para que os problemas sejam percebidos e que uma proposta de ação para a transformação seja apresentada seguindo as questões éticas e de cidadania.

As mudanças encontradas no presente momento da pesquisa revelam a possibilidade real de transformação de um crescimento desordenado, em que o individual sobrepõe os interesses coletivos, para um desenvolvimento, caracterizado por um processo dinâmico e democrático, que pode proporcionar oportunidades de uma vida melhor para todos.

Neste sentido, a educação ambiental, juntamente com a contribuição da psicologia social comunitária, tem um importante papel em contribuir para o processo de sensibilização, conscientização e engajamento dos sujeitos de maneira efetiva, para que busquem um modelo de desenvolvimento que possa, ao mesmo tempo, garantir a conservação do meio ambiente local e contribuir para a melhoria da qualidade de vida através da atividade turística.

Referências Bibliográficas

BERNARDES, Júlia Adão; FERREIRA, Francisco Pontes de Miranda. Sociedade e natureza. In: CUNHA, Sandra Baptista da; GUERRA, Antônio José Teixeira. A questão ambiental: diferentes abordagens. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

MOESCH, Marutschka Martini. A produção do saber turístico. São Paulo : Contexto, 2000.

IRVING. M. A.; AZEVEDO, J. Turismo: o desafio da sustentabilidade. São Paulo: Futura, 2002.

---------------------------
Eloise S. Botelho: Rua Professor Francisco Faria, 916, Bairu. Juiz de Fora, MG. CEP: 36050-140. email: eloisebotelho@hotmail.com

 

 

artigosbook review