| A PARTICIPAÇÃO
COMUNITÁRIA EM IBITIPOCA: UMA POSSIBILIDADE ATRAVÉS
DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL?
Eloise Silveira Botelho
(Faculdade Estácio de Sá de Juiz de Fora)
Contexto do trabalho e justificativa
A partir do final do século XIX a humanidade
passou por diversas transformações no contexto histórico,
cultural, político e econômico que ainda trazem conseqüências
para os dias de hoje.
A globalização é um dos processos
que possibilitou muitas mudanças em todos esses contextos,
chegando mesmo a criar uma nova sociedade, a sociedade de consumo.
Porém, parte das transformações ocorridas se
deram também a partir de uma maior - mas ainda insuficiente
- sensibilização e conscientização da
sociedade para a questão ambiental, em que a ciência
e a tecnologia foram questionadas e alternativas de desenvolvimento
passaram a ser estudadas e idealizadas (BERNARDES & FERREIRA,
2003).
A crise sócio-ambiental surgida a partir do
século XX foi resultante do modelo de desenvolvimento adotado,
fazendo com que diversos questionamentos acerca da questão
ambiental fossem feitos pelos movimentos sociais.
Um dos frutos dessa crise é o fenômeno
do turismo contemporâneo. A humanidade, vendo-se em uma situação
emergencial perante as questões ambientais, tem buscado o
reencontro com a natureza e com as origens, de modo que há
uma "ressignificação" do meio ambiente natural
(MOESCH, 2000).
Desta maneira, o segmento do turismo que mais tem
crescido nos últimos anos é aquele relacionado ao
lazer em áreas naturais.
Porém, quando o fenômeno turístico
se dá ao sabor do mercado, com um foco primordialmente econômico
e sem o engajamento eficaz dos sujeitos envolvidos no processo,
a insustentabilidade é o principal resultado deste tipo de
desenvolvimento, adotado pela maioria dos destinos (IRVING, 2002).
Observando as questões e percebendo o turismo
em áreas naturais como um segmento em forte expansão,
proponho apresentar uma pesquisa realizada para o Curso de Especialização
em Educação Ambiental da UFJF, em que uma investigação
qualitativa foi aplicada com os habitantes de Conceição
de Ibitipoca, Minas Gerais. O trabalho proposto apresentará
a abordagem teórico-metodológica que serviu como embasamento
para a pesquisa em campo, bem como uma breve discussão a
respeito dos resultados da investigação estabelecida
com os moradores.
A localidade abriga a quarta unidade de conservação
mais visitada do Brasil e nos últimos 10 anos, assistiu a
um crescimento desordenado do turismo, fazendo com que a população
se mantivesse desunida diante das questões ambientais e comunitárias.
Objetivos
O estudo realizado teve como objetivo investigar o modelo de desenvolvimento
adotado pelos atores locais e como se dá a participação
para a legitimidade desse desenvolvimento, em que o turismo é
uma das atividades econômicas principais.
Metodologia
Com a concepção da pesquisa qualitativa,
foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com os representantes
das principais instituições de Conceição
de Ibitipoca (Gerente do Parque Estadual de Ibitipoca, líderes
comunitários, presidente da Associação de Moradores
e Amigos de Ibitipoca, Secretário de Turismo, Patrimônio
Histórico-cultural e Meio Ambiente da Prefeitura Municipal
de Lima Duarte e o Diretor da Escola Municipal local). A educação
ambiental e a psicologia social comunitária serviram como
norteadores teórico-metodológicos para a pesquisa
qualitativa com os moradores locais.
Reflexões Centrais para Políticas
Públicas
Para a realização da pesquisa, foram
feitos alguns questionamentos: a participação democrática
e a cidadania estão presentes nos sujeitos e nas relações,
permitindo que os moradores de Ibitipoca constituam uma comunidade?
Quais ações são desenvolvidas para a melhoria
da qualidade de vida e para o desenvolvimento sustentável
do turismo? Qual a percepção dos moradores para a
questão ambiental e como eles constroem sua relação
com a conservação do lugar?
Detectou-se que os principais problemas enfrentados
pelos moradores da vila são relativos à falta de urbanização
e à desconsideração com a conservação
do patrimônio natural e histórico-cultural. Estas questões
estão diretamente ligadas à percepção
dos moradores para a questão ambiental e essa perspectiva
reflete no modo como os atores locais agem - ou não - para
a conservação do lugar. Além disso, esta situação
traduz a ausência da implantação de políticas
públicas que interfiram no processo turístico local.
Através dos relatos, concluo que o modo como
o Parque Estadual de Ibitipoca, gerido pelo Instituto Estadual de
Florestas, se estabeleceu e a pouca participação da
comunidade neste processo são fatores que, em parte, contribuíram
para o surgimento destes problemas. A desvalorização
do saber-fazer local, a pouca oportunidade sócio-econômica
para todos e a desunião são fatores conseqüentes
deste distanciamento entre moradores e turismo, permitindo que se
questione o real benefício da atividade para os habitantes
locais e, ainda, até que ponto há a inserção
dos sujeitos locais no processo de desenvolvimento.
Apesar destas importantes questões apontadas,
reconheço que Conceição de Ibitipoca possui,
atualmente, importantes iniciativas no que dizem respeito à
organização comunitária. As novas iniciativas
transcendem a Associação de Moradores e Amigos de
Ibitipoca (Conselho do Parque Estadual de Ibitipoca, Teatro "Mãos
à Obra" e Meninas Amigas de Ibitipoca) e permitem visualizar
uma nova perspectiva e novos valores.
Assim, a participação local para a
legitimidade do desenvolvimento está abrindo seu espaço
dentro das diversas dificuldades encontradas, embora ainda haja
necessidade de trabalhar, através da educação
ambiental, algumas mudanças no que tange à conservação
ambiental e à organização e planejamento do
turismo de base comunitária, para que os problemas sejam
percebidos e que uma proposta de ação para a transformação
seja apresentada seguindo as questões éticas e de
cidadania.
As mudanças encontradas no presente momento
da pesquisa revelam a possibilidade real de transformação
de um crescimento desordenado, em que o individual sobrepõe
os interesses coletivos, para um desenvolvimento, caracterizado
por um processo dinâmico e democrático, que pode proporcionar
oportunidades de uma vida melhor para todos.
Neste sentido, a educação ambiental,
juntamente com a contribuição da psicologia social
comunitária, tem um importante papel em contribuir para o
processo de sensibilização, conscientização
e engajamento dos sujeitos de maneira efetiva, para que busquem
um modelo de desenvolvimento que possa, ao mesmo tempo, garantir
a conservação do meio ambiente local e contribuir
para a melhoria da qualidade de vida através da atividade
turística.
Referências Bibliográficas
BERNARDES, Júlia Adão; FERREIRA, Francisco
Pontes de Miranda. Sociedade e natureza. In: CUNHA, Sandra Baptista
da; GUERRA, Antônio José Teixeira. A questão
ambiental: diferentes abordagens. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2003.
MOESCH, Marutschka Martini. A produção
do saber turístico. São Paulo : Contexto, 2000.
IRVING. M. A.; AZEVEDO, J. Turismo: o desafio da
sustentabilidade. São Paulo: Futura, 2002.
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