| NOS RUMOS
DO ECOTURISMO E DA INCLUSÃO SOCIAL: O CASO DA RESEX MARINHA
DO DELTA DO PARNAÍBA (MA/PI)
Flávia Ferreira Mattos (CPDA
- UFRRJ)
Marta de Azevedo Irving (Programa EICOS - UFRJ)
Contextualização
O presente trabalho é fruto de uma reflexão
desenvolvida a partir do estudo de caso na região do Delta
do Parnaíba MA/PI. A pesquisa foi realizada junto aos povoados
residentes na Ilha das Canárias (Canárias, Passarinho,
Caiçara, Torto e Morro do Meio), recentemente transformada
na Reserva Extrativista Marinha do Delta do Parnaíba (MA/PI)1
e inserida na área potencial e prioritária para o
desenvolvimento do Ecoturismo no Brasil.
Resumo
O ecoturismo cada vez mais se dirige às unidades
de conservação (UC) de uso sustentável e o
envolvimento com as populações tradicionais, além
de um diferencial no produto ecoturístico, passou a representar
uma alternativa econômica e uma ferramenta para a conservação
(Coutinho, 2000). Assim, as comunidades presentes nas categorias
de UC de uso sustentável, de acordo com o Sistema Nacional
de Unidades de Conservação (SNUC), em especial nas
Reservas Extrativistas (RESEX) e nas Reservas de Desenvolvimento
Sustentável (RDS), entraram em cena como interessantes aliados
para a implantação da atividade e a conservação.
No entanto, transversalmente, a compreensão da interface
do ecoturismo e comunidades em unidades de conservação,
perpassa a compreensão crítica do amplo debate sobre
participação das mesmas no processo de tomada de decisões,
uma vez que historicamente estas populações permaneceram
alijadas desses processos, nem sempre recebem os benefícios
anunciados ou estão presentes na gestão desses espaços
protegidos. Este reflexão está intimamente ligada
ao fortalecimento dos movimentos sócio-ambientais e também
se vincula a uma revisão crítica e pró-ativa
da academia, com base na reflexão sobre sustentabilidade
ecológica e eqüidade e inclusão social e objetiva
influenciar uma revisão das práticas políticas
no Brasil.
Uma importante questão expressa por Irving
(2001), que observa as características dos projetos de desenvolvimento
no Brasil ao longo dos últimos anos, diz respeito à
fragilidade da organização e participação
de determinadas comunidades no planejamento de estratégias
para desenvolvimento local. Como assinala a autora (2001):
"Um dos pontos reconhecidos de maior
fragilidade nas iniciativas em andamento se refere ao compromisso
de engajamento (dos atores locais) e o compromisso de conservação
ambiental no processo de planejamento do Ecoturismo em áreas
de elevado valor ecológico ou Unidades de Conservação".(p.
50).
Além disso, Irving (2001) observa que ainda
hoje o modo de vida, o patrimônio natural, histórico
e cultural dessas comunidades é pouco conhecido para efeito
de planejamento. Lima (1997), a partir da experiência da implantação
da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá,
no Estado do Amazonas, observa que a diversidade social implica
na necessidade de se conhecer em profundidade as formas de reprodução
social, para que se desenvolvam modelos de participação,
manejo e preservação, específicos para cada
situação. Neste sentido, a autora assinala que:
"O envolvimento das populações
locais em unidades de conservação não deve
seguir um modelo muito rígido. Ao contrário as experiências
precisam ser construídas no decorrer de um processo de
interação contínua com a população,
ajustando as demandas e costumes locais à intenção
de se construir um sistema de uso sustentado do ambiente, que
combinado com a preservação da biodiversidade, garanta
uma melhoria da qualidade de vida da população".
(p. 311)
É necessário ressaltar que semelhante
a RDS, as Reservas Extrativistas também investem na parceria
ecológica com as populações locais e apresentam
como fundamento a participação de seus moradores na
gestão da área. Porém, a dificuldade de implantação
das Unidades de Conservação na realidade brasileira,
a complexidade de operacionalização do ecoturismo
devido aos diferentes grupos de interesses envolvidos e as nuances
características das práticas políticas, constituem
grandes desafios na atualidade e incentivam, sobretudo, a investigação
das bases em que estão sendo construídas as relações
com as populações extrativistas locais nas parcerias
existentes.
No caso do Delta do Parnaíba, a constatação
da problemática local com a chegada dos primeiros indícios
de turismo nas comunidades do delta, a falta de dados sistematizados
e instrumentos de manejo, bem como a incerteza com relação
ao papel assumido por essas comunidades, inspirou uma investigação
para o aprofundamento da questão, apresentando o morador
local como protagonista deste cenário.
O estudo realizado teve como objetivo a compreensão
da dinâmica local e a busca do olhar dos moradores das Canárias,
suas inquietações, medos e expectativas na atualidade,
tendo em vista as novas estratégias de desenvolvimento da
região dirigidas ao Ecoturismo.
Desta forma, procurou-se compreender principalmente
as seguintes questões. Nos rumos do ecoturismo, qual o lugar
das comunidades do Delta do Parnaíba? Como se posicionam
os moradores nascidos nas ilhas do delta frente à chegada
do turismo? Quais os benefícios e prejuízos percebidos
por eles? Como os moradores interagem com as tendências observadas
para a região? Estas questões nortearam a investigação,
que teve como base para a reflexão o enfoque de desenvolvimento
local, que vem influenciando as estratégias para o ecoturismo
e é entendido por Carestiato (2000) como:
"Um modelo de desenvolvimento que permite
a construção de poder endógeno para que uma
dada comunidade possa autogerir-se, desenvolvendo seu potencial
sócio-econômico, preservando o seu patrimônio
ambiental e superando as suas limitações na busca
contínua da qualidade de vida de seus indivíduos".
(p. 27)
Segundo essa perspectiva, o desenvolvimento, a partir
do enfoque local, além de circunscrever a questão
no espaço de inserção de um grupo social com
suas especificidades, valoriza o envolvimento comunitário,
está alicerçado em relações horizontais
e na noção de empoderamento das comunidades, valores
que, segundo Irving (2002), constituem a garantia ética de
sustentabilidade em projetos de desenvolvimento.
Referências bibliográficas
CARESTIATO, Andréa. Educação
ambiental como estratégia de desenvolvimento local: um estudo
de caso. Dissertação de Mestrado, Programa EICOS/IP/UFRJ,
Rio de Janeiro, 2000.
COUTINHO, Maria. Ecoturismo: Reservas Extrativistas
no Brasil e Experiências da Costa Rica. Dissertação
apresentada para obtenção do título de mestre
em Integração da América Latina, área
de concentração em comunicação e cultura.
Orientadora Prof.ª Dr.ª Beatriz Helena Gelas Lage. Universidade
de São Paulo, março de 2000.
IRVING, Marta. A. O Ecoturismo no Brasil: Retrospectiva
e Tendências, in Boletim de Turismo e Administração
[Publicação do] Centro Universitário Ibero
Americano, Vol 10, n.º 2 (outubro 2001) - São Paulo:
UNIBERO, 2001
LIMA, Deborah. Equidade, Desenvolvimento Sustentável
e Preservação da Biodiversidade. In: Faces do Trópico
Úmido, Edna Castro e F. Pintos (eds.). Belém: Cejup,
1997.
MMA/SDS. Zoneamento Ecológico-Econômico
do Baixo Rio Parnaíba: Subsídios técnicos,
Relatório Final. - Brasília, 2002.
|