Publicado em dezembro de 2005



Realização

Apoio

O PROJETO DE ECODESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO DA MICROBACIA DO RIO COLINA

Joana P. Luiz da Costa (Centro Comunitário Rural da Colina)
Isabel de Andrade Pinto (Centro Comunitário Rural da Colina)

Contexto do trabalho e justificativa

A Colina é uma das comunidades rurais do município de Itamonte, Minas Gerais. Está localizada entre 1300 e 1800 metros de altitude, no interior da APA Serra da Mantiqueira, e entorno de duas importantes unidades de conservação de proteção integral da região: o Parque Nacional do Itatiaia (PNI) e o Parque Estadual da Serra do Papagaio (PESP). Vivem hoje na Colina cerca de 70 famílias, ocupando pequenos lotes1 na vila às margens do rio Colina.

Há cerca de duas décadas as capoeiras vêm voltando nas encostas, formando uma paisagem atraente para os sitiantes que vem das cidades. Existe hoje, na Colina e em todas essas serras, um mosaico de ocupação por pessoas com duas origens distintas, rural e urbana, que implicam em visões de mundo diferentes que se refletem na paisagem.

Este trabalho está relacionado com a nossa trajetória pessoal. De origem urbana, optamos por viver na Colina. A ação ecológica já existia, identificada pelas professoras como sua mobilização para a catação do lixo pela comunidade, que passa a ser coletado, por demanda dos moradores, em meados da década de 80. Apesar dos muitos conflitos e desafios à continuidade deste processo, acreditamos na importância fundamental da ação organizada dos grupos locais para o desenvolvimento rural sustentável.

Objetivos

a) fortalecer o Centro Comunitário Rural da Colina como fórum de negociação de conflitos e planejamento da gestão do espaço local,
b) facilitar o acesso dos moradores da Colina, especialmente dos jovens, a instâncias decisórias sobre o espaço local

Metodologia

De 2000 a 2004, realizamos uma série de oficinas educativas contando com o trabalho voluntário de colegas e amigos e o apoio da Fundação Luterana de Diaconia para a compra de materiais. Nesse período do Centro Comunitário adquiriu teares, violões, equipamentos de rapel. Também foi implantado um viveiro de produção de mudas. Através das oficinas, buscamos envolver adultos - nem sempre com sucesso - e jovens com o fortalecimento da organização comunitária do bairro.

Em 2002, nos integramos ao projeto coordenado pela ONG Crescente Fértil (Resende) e financiado pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD) intitulado "Integrando Ações na Mantiqueira", cujo objetivo consistia na troca de experiências entre jovens de 5 comunidades rurais localizadas na APA. Este teve fundamental importância na consolidação da identidade do grupo da Colina, contextualizando sua ação local e revelando semelhanças e diferenças entre os grupos rurais.

Desde 2004, o CCRC participa do Programa de Fortalecimento Institucional do Corredor da Serra do Mar. O diagnóstico da Colina foi aprofundado e sistematizado por meio de um processo de produção coletiva de conhecimento ao longo de um ano, focando passado, presente e futuro da Colina.

Com o auxilio de consultores, o processo histórico da comunidade foi internalizado pelo grupo, que passou a exercitar o planejamento do futuro do bairro. Esse momento mostrou-se especialmente rico, tanto no sentido de compreensão coletiva do espaço local e seu contexto mais amplo através do trabalho com mapas e construção de maquete, quanto pela nova fronteira de integração aberta entre o grupo mais amplo dos proprietários e a população local.

Um dos resultados mais expressivos da mobilização é, para nós, a disponibilização de recursos materiais e humanos dos proprietários para viabilizar a continuidade deste processo educativo buscando a geração de renda para os jovens no local. (Recentemente, um grupo de proprietários organizou-se para pagar o estudo superior de uma jovem liderança local, que deseja formar-se profissional da área ambiental.)

Reflexões Centrais para Políticas Públicas

Temos como premissa a crença filosófica na integração das lógicas rural e urbana como alternativa ao sistema insustentável que se configura atualmente. E, acima de tudo, nos baseamos num profundo respeito e confiança no potencial das pessoas que já viviam aqui antes de chegarmos.

O movimento ambientalista encerra ambigüidades, sendo capaz de agir de maneira integrativa ou excludente perante a população rural2. Hoje as tentativas de integração entre os agentes ambientalistas no contexto regional são frágeis3 e determinadas pelo contexto mais amplo de disputa de poder dentro do campo de forças que vem se estabelecendo no território legalmente protegido.

Grupos de moradores são agentes apropriados à realização de trabalhos continuados em suas comunidades e microrregião, e a continuidade ligada a tais processos endógenos favorece e viabiliza metas de longo prazo para o desenvolvimento local. Por outro lado, o agente neo-rural ambientalista representa uma potencialidade de o acesso dos grupos a recursos e a outros agentes sociais. Nesse contexto, o jovem rural é o agente emergente nas fronteiras que se formam nos encontros entre urbano e rural nos espaços locais, aptos a agir na consolidação de um futuro mais integrativo (ecológico) nas áreas protegidas.

De maneira homóloga a outros projetos socioambientais que tem lugar no município e região, o trabalho na Colina revela a potencialidade desses jovens como tradutores simbólicos entre o mundo rural e urbano, capazes de fazer-nos chegar a melhores condições de representatividade da população rural no campo de gestão das áreas protegidas4.

Essa representatividade da zona rural é especialmente valiosa, ao aportar à cultura ecológica em formação valores integrativos entre homens e homem e natureza, e na formação de uma cultura capaz de padrões de produção e consumo que possibilitem a sustentabilidade dos lugares.

Os jovens moradores da Serra da Mantiqueira são lideranças locais em formação, com importância central na expectativa que temos de gestão participativa das áreas protegidas. Demandam ser apoiados em sua formação tanto saindo de suas comunidades para estudar, quanto fortalecendo a consciência local através de um saber-fazendo mais integrativo com o seu próprio meio-ambiente.

Referências bibliográficas

CAPRA, F, (1996). A Teia da Vida. Ed. Cultrix, São Paulo.

MOREIRA, R. J, (1999) Economia Política da Sustentabilidade: Uma perspectiva neomarxista. In: Costa, L.F.C, et al. (Orgs.) Mundo Rural e Tempo Presente. Ed. Mauad, Rio de Janeiro.

SILVA, C. E. M, (2001). Democracia e Sustentabilidade na Agricultura: subsídios para a construção de um novo modelo de desenvolvimento rural, Projeto Brasil Sustentável e Democrático, FASE, cadernos temáticos n. 4, Rio de Janeiro.

1 Menores que o módulo mínimo do INCRA. Com origem em antigas relações de colonato, quase nenhuma dessas propriedades é regularizada em cartório.
2 Moreira, 2000.
3 As instituições procuram estabelecer-se reproduzindo valores auto-afirmativos e excludentes característicos do pensamento moderno, mas inadequados ao novo paradigma de rede que buscamos hoje por pressão da crise ecológica (Capra, 1996).
4 É muito pequena a participação da população rural nos conselhos consultivos do Parque Nacional do Itatiaia, da APA Serra da Mantiqueira e do Parque Estadual da Serra do Papagaio - inclusive devido à necessidade de uma mobilização social que é mais profunda do que o possível na atual realidade dos projetos governamentais e não- governamentais agindo na região.

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Joana P. Luiz da Costa joana@terra.com.br Rua dos Expedicionários, 339, Itamonte- MG. CEP: 36.570 - 000.

Este trabalho recebeu o apoio da Fundação Luterana de Diaconia por meio de R$ 7.000,00 e do acompanhamento sociológico desta instituição (que continua até hoje). Em 2004, o projeto recebeu R$ 25.000,00 pelo programa de fortalecimento institucional gerido pela Fundação Mico Leão Dourado, com recursos do CEPF. O diagnóstico da Colina pode ser aprofundado pela pesquisa de mestrado desta autora no CPDA/ UFRRJ.

 

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