| O PROJETO
DE ECODESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO DA MICROBACIA DO RIO COLINA
Joana P. Luiz da Costa (Centro Comunitário
Rural da Colina)
Isabel de Andrade Pinto (Centro Comunitário Rural da Colina)
Contexto do trabalho e justificativa
A Colina é uma das comunidades rurais do município
de Itamonte, Minas Gerais. Está localizada entre 1300 e 1800
metros de altitude, no interior da APA Serra da Mantiqueira, e entorno
de duas importantes unidades de conservação de proteção
integral da região: o Parque Nacional do Itatiaia (PNI) e
o Parque Estadual da Serra do Papagaio (PESP). Vivem hoje na Colina
cerca de 70 famílias, ocupando pequenos lotes1
na vila às margens do rio Colina.
Há cerca de duas décadas as capoeiras
vêm voltando nas encostas, formando uma paisagem atraente
para os sitiantes que vem das cidades. Existe hoje, na Colina e
em todas essas serras, um mosaico de ocupação por
pessoas com duas origens distintas, rural e urbana, que implicam
em visões de mundo diferentes que se refletem na paisagem.
Este trabalho está relacionado com a nossa
trajetória pessoal. De origem urbana, optamos por viver na
Colina. A ação ecológica já existia,
identificada pelas professoras como sua mobilização
para a catação do lixo pela comunidade, que passa
a ser coletado, por demanda dos moradores, em meados da década
de 80. Apesar dos muitos conflitos e desafios à continuidade
deste processo, acreditamos na importância fundamental da
ação organizada dos grupos locais para o desenvolvimento
rural sustentável.
Objetivos
a) fortalecer o Centro Comunitário Rural da
Colina como fórum de negociação de conflitos
e planejamento da gestão do espaço local,
b) facilitar o acesso dos moradores da Colina, especialmente dos
jovens, a instâncias decisórias sobre o espaço
local
Metodologia
De 2000 a 2004, realizamos uma série de oficinas
educativas contando com o trabalho voluntário de colegas
e amigos e o apoio da Fundação Luterana de Diaconia
para a compra de materiais. Nesse período do Centro Comunitário
adquiriu teares, violões, equipamentos de rapel. Também
foi implantado um viveiro de produção de mudas. Através
das oficinas, buscamos envolver adultos - nem sempre com sucesso
- e jovens com o fortalecimento da organização comunitária
do bairro.
Em 2002, nos integramos ao projeto coordenado pela ONG Crescente
Fértil (Resende) e financiado pela Fundação
Luterana de Diaconia (FLD) intitulado "Integrando Ações
na Mantiqueira", cujo objetivo consistia na troca de experiências
entre jovens de 5 comunidades rurais localizadas na APA. Este teve
fundamental importância na consolidação da identidade
do grupo da Colina, contextualizando sua ação local
e revelando semelhanças e diferenças entre os grupos
rurais.
Desde 2004, o CCRC participa do Programa de Fortalecimento
Institucional do Corredor da Serra do Mar. O diagnóstico
da Colina foi aprofundado e sistematizado por meio de um processo
de produção coletiva de conhecimento ao longo de um
ano, focando passado, presente e futuro da Colina.
Com o auxilio de consultores, o processo histórico
da comunidade foi internalizado pelo grupo, que passou a exercitar
o planejamento do futuro do bairro. Esse momento mostrou-se especialmente
rico, tanto no sentido de compreensão coletiva do espaço
local e seu contexto mais amplo através do trabalho com mapas
e construção de maquete, quanto pela nova fronteira
de integração aberta entre o grupo mais amplo dos
proprietários e a população local.
Um dos resultados mais expressivos da mobilização
é, para nós, a disponibilização de recursos
materiais e humanos dos proprietários para viabilizar a continuidade
deste processo educativo buscando a geração de renda
para os jovens no local. (Recentemente, um grupo de proprietários
organizou-se para pagar o estudo superior de uma jovem liderança
local, que deseja formar-se profissional da área ambiental.)
Reflexões Centrais para Políticas
Públicas
Temos como premissa a crença filosófica
na integração das lógicas rural e urbana como
alternativa ao sistema insustentável que se configura atualmente.
E, acima de tudo, nos baseamos num profundo respeito e confiança
no potencial das pessoas que já viviam aqui antes de chegarmos.
O movimento ambientalista encerra ambigüidades,
sendo capaz de agir de maneira integrativa ou excludente perante
a população rural2. Hoje
as tentativas de integração entre os agentes ambientalistas
no contexto regional são frágeis3
e determinadas pelo contexto mais amplo de disputa de poder dentro
do campo de forças que vem se estabelecendo no território
legalmente protegido.
Grupos de moradores são agentes apropriados
à realização de trabalhos continuados em suas
comunidades e microrregião, e a continuidade ligada a tais
processos endógenos favorece e viabiliza metas de longo prazo
para o desenvolvimento local. Por outro lado, o agente neo-rural
ambientalista representa uma potencialidade de o acesso dos grupos
a recursos e a outros agentes sociais. Nesse contexto, o jovem rural
é o agente emergente nas fronteiras que se formam nos encontros
entre urbano e rural nos espaços locais, aptos a agir na
consolidação de um futuro mais integrativo (ecológico)
nas áreas protegidas.
De maneira homóloga a outros projetos socioambientais
que tem lugar no município e região, o trabalho na
Colina revela a potencialidade desses jovens como tradutores simbólicos
entre o mundo rural e urbano, capazes de fazer-nos chegar a melhores
condições de representatividade da população
rural no campo de gestão das áreas protegidas4.
Essa representatividade da zona rural é especialmente
valiosa, ao aportar à cultura ecológica em formação
valores integrativos entre homens e homem e natureza, e na formação
de uma cultura capaz de padrões de produção
e consumo que possibilitem a sustentabilidade dos lugares.
Os jovens moradores da Serra da Mantiqueira são
lideranças locais em formação, com importância
central na expectativa que temos de gestão participativa
das áreas protegidas. Demandam ser apoiados em sua formação
tanto saindo de suas comunidades para estudar, quanto fortalecendo
a consciência local através de um saber-fazendo mais
integrativo com o seu próprio meio-ambiente.
Referências bibliográficas
CAPRA, F, (1996). A Teia da Vida. Ed. Cultrix, São
Paulo.
MOREIRA, R. J, (1999) Economia Política da
Sustentabilidade: Uma perspectiva neomarxista. In: Costa, L.F.C,
et al. (Orgs.) Mundo Rural e Tempo Presente. Ed. Mauad, Rio de Janeiro.
SILVA, C. E. M, (2001). Democracia e Sustentabilidade
na Agricultura: subsídios para a construção
de um novo modelo de desenvolvimento rural, Projeto Brasil Sustentável
e Democrático, FASE, cadernos temáticos n. 4, Rio
de Janeiro.
1 Menores que
o módulo mínimo do INCRA. Com origem em antigas relações
de colonato, quase nenhuma dessas propriedades é regularizada
em cartório.
2 Moreira, 2000.
3 As instituições procuram
estabelecer-se reproduzindo valores auto-afirmativos e excludentes
característicos do pensamento moderno, mas inadequados ao
novo paradigma de rede que buscamos hoje por pressão da crise
ecológica (Capra, 1996).
4 É muito pequena a participação
da população rural nos conselhos consultivos do Parque
Nacional do Itatiaia, da APA Serra da Mantiqueira e do Parque Estadual
da Serra do Papagaio - inclusive devido à necessidade de
uma mobilização social que é mais profunda
do que o possível na atual realidade dos projetos governamentais
e não- governamentais agindo na região.
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Joana P. Luiz da Costa joana@terra.com.br Rua dos Expedicionários,
339, Itamonte- MG. CEP: 36.570 - 000.
Este trabalho recebeu o apoio da Fundação
Luterana de Diaconia por meio de R$ 7.000,00 e do acompanhamento
sociológico desta instituição (que continua
até hoje). Em 2004, o projeto recebeu R$ 25.000,00 pelo programa
de fortalecimento institucional gerido pela Fundação
Mico Leão Dourado, com recursos do CEPF. O diagnóstico
da Colina pode ser aprofundado pela pesquisa de mestrado desta autora
no CPDA/ UFRRJ.
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