| PARQUE
ESTADUAL DO RIO DOCE & REGIONAL LESTE DE TIMÓTEO: A CONSERVAÇÃO
AMBIENTAL ESTIMULANDO A CONSTRUÇÃO DO DESENVOLVIMENTO.
Lêda Luz (Projeto Doces Matas,
GFA-IP)
Jailma Soares (Parque Estadual do Rio Doce/Instituto Estadual de
Florestas MG)
Contexto do Trabalho e Justificativa
O discurso da participação, como apontado
por Carvalho (1998), tem se generalizado no Brasil nas últimas
décadas. No entanto, o registro da participação
social na gestão das áreas protegidas é notadamente
escasso. Mannigel (2004) aponta que as mudanças recentes
na legislação ambiental brasileira proporcionaram
instrumentos de participação pública, como
audiências públicas, conselhos de unidades de conservação
e co-gestão. Essas inovações contidas no Sistema
Nacional de Unidades de Conservação - SNUC representam
a institucionalização da democratização
da gestão das unidades de conservação. Mannigel
alerta, entretanto, que a implementação de instrumentos
legais não é o suficiente, devido à necessidade
de mudanças institucionais que possam responder aos novos
desafios.
Converter a legislação ambiental em
realidade, permitindo o compartilhamento de poder e responsabilidade
com a sociedade é um processo demorado, complexo e descontínuo
e necessita ser assumido tanto pelas instituições
públicas responsáveis pelas unidades de conservação,
quanto pelos diversos setores da sociedade brasileira. O desafio
é acentuado quando a criação destes espaços
depende da atuação horizontal dos diferentes atores
envolvidos na construção de redes de cooperação
com objetivos abrangentes que tentam abarcar num mesmo foco a conservação
ambiental e o bem-estar da sociedade, dois temas comumente tratados
de forma dicotômica.
Apresentam-se aqui, as etapas iniciais de uma estratégia
que visa integrar a proteção do Parque Estadual do
Rio Doce - PERD - administrado pelo Instituto Estadual de Florestas/IEF
- e o desenvolvimento de uma região de seu entorno, contribuindo
assim para a construção do desenvolvimento com inclusão
social e proteção ambiental. Trata-se de um processo
participativo de construção de uma rede de cooperação,
no município de Timóteo - Minas Gerais, o qual abriga
em seu território parte do parque.
A diversidade do entorno do parque provoca graves
impactos sobre os recursos naturais da Unidade e apresenta inúmeros
desafios a sua integração ao desenvolvimento regional.
Notadamente, a região leste do município de Timóteo,
em função da crescente ocupação urbana
desordenada nos limites da unidade de conservação.
Os impactos negativos não se restringem apenas
à biodiversidade do parque. A Regional Leste de Timóteo,
com população estimada em 10.000 pessoas, também
sofre as consequências da expansão urbana e do uso
desordenado do solo, como redução e contaminação
dos recursos hídricos, redução da área
agrícola, aumento da incidência de doenças tropicais
e insuficiência de serviços sociais (Diagnóstico
Participativo da Regional Leste, 2004).
Objetivos
Documentar a iniciativa de uma unidade de conservação
em se inserir ao contexto político, social e econômico
de seu entorno, através da construção de uma
rede de cooperação de diferentes atores, com o intuito
de desencadear um processo de desenvolvimento local em uma região
marginal de seu entorno.
Metodologia
A estratégia de ação baseou-se
nos trabalhos sobre participação e desenvolvimento
local de Franco (2000), Barth e Brose (2002) e sobre metodologias
participativas de Schonhuth e Kievelitz (1994) e organizados por
Brose (2001). É composta por etapas de mobilização,
análise participativa da realidade, devolução
das informações, definição de prioridades,
planejamento participativo e implementação compartilhada,
conduzindo a formação de uma rede cooperação
para o desenvolvimento local. Este texto discute as primeiras etapas
desta estratégia.
Reflexões Centrais para Políticas
Públicas
Em processos desta natureza, a confiança
entre os diversos atores é construída no decorrer
do processo e para tal colaboram, a transparência nos processos
decisórios, o reconhecimento de limitações,
a clareza nos objetivos e a comunicação eficiente,
o que requer tempo e dedicação e o uso dos mais diversos
meios de comunicação.
A organização em rede é uma
nova forma de atuação que as instituições,
principalmente as públicas, necessitam vivenciar, aprendendo
e aprimorando o seu fazer. Reconhecer as limitações
inerentes a cada ator, mas sobretudo, suas potencialidades de contribuição,
é imprescindível na criação e fortalecimento
dos laços de compromisso necessários ao processo.
Verificou-se que as mudanças políticas,
produzidas por processos eleitorais, nos diferentes níveis
de governo e mesmo nas associações comunitárias,
comprometem o envolvimento e compromisso de diferentes atores sociais,
fundamentais para almejar resultados positivos e duradouros. Mecanismos
que possam ampliar a participação devem ser adotados
para minimizar tais efeitos.
Finalmente, conclui-se que a participação
é um exercício de empoderamento da sociedade, construído
ao longo do tempo, e demanda persistência, capacidade de aprender
com os erros, administrar as diferenças e trabalhar uma identidade
comum que contribua para alcançar os objetivos.
Referências Bibliográficas
Barth, J. e Brose, M. Participação
e Desenvolvimento Local. Porto Alegre: Sulina, 2002. 200p.
Bos, Alexander. Desafios para uma pedagogia social.
São Paulo: Antroposófica, 1986.
Brose, M. Desenvolvimento Local. Uma conceituação
Empírica.Série Gestão Pública 01. Ijuí:
Editora Unijuí, 2004.
Carvalho, M.C.A.A. Participação Social
no Brasil Hoje. São Paulo: Pólis Papers, 1998. Nr.
2.
Castro, I. Introdução às Habilidades
e Técnicas Básicas de Trabalho do Facilitador. Relatório
de Curso Oficina. Projeto Doces Matas. Belo Horizonte. 2002.
Franco, A. de,. Porque precisamos de Desenvolvimento
Local Integrado e Sustentável. Segunda Edição.
Brasília. 2000.
Luz, L. e Soares, J. Parque Estadual do Rio Doce
e Regional Leste de Timóteo, MG: Vizinhos em busca de proteção
e desenvolvimento. Projeto Doces Matas, 2004.
Mannigel, E. e Luz, L. Plano de Manejo e Conselho
Consultivo do Parque Estadual do Rio Doce: um caminho para a gestão
participativa de áreas protegidas. Belo Horizonte: Projeto
Doces Matas, 2004.
Mannigel, E. Deutsche Gesellschaft für Technische
Zusammenarbeit (GTZ) Gmbh. Eschborn, 2004.
Metodologia participativa: uma introdução
a 29 instrumentos. Brose, M. (Org.).Porto Alegre: Tomo Editorial,
2001. - 312 p.
Projeto Doces Matas. Relatório do Diagnóstico
Participativo da Regional Leste de Timóteo, 2004.
Schönhut, M. e Kievelitz, U. Diagnóstico
rural rápido; Diagnóstico rural participativo; Métodos
participativos de diagnóstico y planificación em la
cooperación al desarrollo; uma introducción comentada.
Eschborn, 1994.
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