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SISTEMA
DE CO-GERENCIAMENTO APROPRIADO À COMPLEXIDADE DO MULTIUSO
SUSTENTÁVEL DE ÁREAS PROTEGIDAS EM ZONAS COSTEIRAS
Antônio Marcos Muniz Carneiro
(Linha de Pesquisa em Gestão Ambiental da Produção
- SAGE/COPPE/UFRJ)
Luiz Fernando Vieira
(ONG Associação de Meio Ambiente de Cabo Frio)
Ricardo Coutinho
(Instituto Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira - IEAPM)
Contexto do trabalho e justificativa
Este trabalho encerra-se em uma proposição
de co-gerenciamento do multiuso sustentável dos recursos
marinhos de duas áreas protegidas em zonas costeiras da Bacia
de Campos- litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, a Reserva
Extrativista Marinha do Arraial do Cabo e a Área de Proteção
Ambiental Pau-Brasil. Situadas, respectivamente, no município
de Arraial do Cabo e entre os municípios de Armação
de Búzios e Cabo Frio, as áreas em foco constituem
o Grupo das Unidades de Uso Sustentável de acordo com a Lei
do SNUC/2000. Criadas por força de decretos-lei, federal
e estadual, a APA e a RESEXMAR encontram-se numa região avaliada
com conceito de "Extrema Importância Biológica",
o grau máximo de conservação da biodiversidade
marinha no país. Seus ecossistemas marinhos são privilegiados
pela ocorrência do raro fenômeno da "ressurgência"
(upwelling), a subida bem próxima à costa de correntes
frias vindas do pólo sul, ricas em nutrientes inorgânicos
(nitratos, fosfatos e silicatos), que proporcionam a reprodução
de microorganismos da cadeia trófica, proporcionando uma
alta biodiversidade e piscosidade de seu bioma. A preservação
desses dois territórios demarcados, apesar da sua qualidade
ecológica atual, não está imune, entretanto,
aos riscos sócio-ambientais contemporâneos. Segundo
o relatório do Millennium Ecosystem Assesment (2005), hoje
parecem evidenciar mudanças não-lineares nos ecossistemas,
com importantes conseqüências para o bem-estar humano,
podendo levar a pesca artesanal, ainda marcante para as populações
da região, a perder a sua capacidade de reprodução
social sob a influência de diferentes impactos antropogênicos
na região de seu entorno (especulação imobiliária,
turismo predatório, exploração petrolífera,
sobrepesca, bioinvasão).
Para fazer frente à reversão desse
cenário de degradação sócio-ambiental,
passamos a postular um sistema complexo que sugere a inovação
institucional adequada à utilização mais diversificada
e equilibrada dos recursos dos ecossistemas das duas unidades de
conservação. A sua operação consistiria
em uma ocupação econômica alternativa para essas
unidades de conservação que leve em conta a vocação
cultural local para o mar como também o seu histórico
potencial pesqueiro e de cultivo de organismos promovido pelo fenômeno
da "ressurgência". O design proposto para esse sistema,
baseado em uma rede de "stakeholders", alinha concepções
arquitetônicas e paisagísticas à conexão
entre as atividades de bioprodução/pesca, ensino/pesquisa,
ecoturismo e monitoramento sócio-ambiental. Este estrutura-se
em indicadores de sustentabilidade com objetivos mais amplos, tais
como ecológicos, sociais, econômicos e institucionais,
não restritos, somente, às dimensões biológicas
e às limitações das espécies marinhas.Visando
à auto-sustentabilidade desses sistemas complexos, a produção
de alimentos em cada unidade poderá alcançar 12 ton/ano
ou mais de mexilhões Perna perna, milhares de dúzias
de ostras japonesas/Crassostrea gigas e vieiras/coquilles saint-jacques
Nodipecten nodosus, e outros organismos bentônicos, além
de iscas vivas e peixes comerciais.A sua infra-estrutura básica
e operacional poderá valer-se da transferência da tecnologia
off shore, empregada prioritariamente para a exploração
de hidrocarbonetos, para a edificação de uma plataforma
oceanográfica de multiuso (laboratórios de oceanografia
e biologia marinha, câmara de observação submarina,
banheiros químicos, abastecimento de energias solar e eólica,
restaurante de frutos do mar etc.), fixada ao substrato fundo no
interior de uma fazenda marinha.
Objetivos
O sistema socioecológico proposto visa proporcionar
o emponderamento das comunidades tradicionais de pescadores das
duas unidades de conservação costeira, por meio de
um arranjo institucional compartilhado com múltiplos usuários
que sustente uma bioprodutividade marinha com um máximo de
rentabilidade.
Metodologia
A realidade complexa dessas organizações
socioecológicas, percebida como algo sempre inacabado e incompleto,
apresenta interações inextricavelmente múltiplas.
Isso requer metodologias de projetação adaptativa
em grau mais elevado de complexidade das interações.
Diferentemente da linearidade da lógica clássica de
causa-efeito e retro-ação, suas operações
produzem efeitos que estão implicados no próprio processo
que os gerou. Seus procedimentos realizam-se através de movimentos
"recursivos", em constantes feedbacks de ação
- reflexão - ação. De acordo com a concepção
científica adotada, as abordagens, técnicas e ferramentas
de pesquisa participativa em gestão dos recursos marinhos
não são consideradas como formas semânticas
imanentes, mas "eventos". Isso permite compreender a dimensão
estruturante, e não estruturalista, das unidades de preservação
do uso dos recursos naturais. No quadro das metodologias contemporâneas
de pesquisa e gestão ambiental, a metodologia em foco sintetiza
um conjunto de metodologias apropriadas ao movimento da complexidade,
denominado por nós de "metodologia interativa".
Ela proporcionaria ao planejamento, à transferência
tecnológica e ao gerenciamento dessas unidades a interação
entre os saberes endógenos e científicos por meio
de um processo interativo constituído pela interlocução
e pela interdisciplinaridade.
Reflexões Centrais para Políticas
Públicas
Em primeiro lugar, salientamos que a incorporação
dos novos padrões de gerenciamento do uso dos recursos naturais
torna imprescindível a reflexão sobre a formação
autoritária de nossa sociedade. A falta desse exercício
poderá transformar em uma armadilha a metáfora da
"Tragédia dos Bens Comuns" (Hardim): o acesso de
usuários seria sempre problemático (desordenado e
competitivo) por pressupor que os recursos naturais não pertencem
a todos e a ninguém. Em segundo lugar, essa reflexão
deve fazer-se acompanhar por uma revisão crítica à
ciência convencional da gestão de recursos naturais,
que se ajusta bem à promoção de um estilo de
desenvolvimento predatório (business in liquidation), mas
não ao uso sustentável (Vieira et al., 2005). Não
se trata mais, apenas, de uma abordagem neoclássica da apropriação
"física" dos recursos. Na economia predominante
da atualidade, diferentemente, o que vem ocorrendo é uma
generalização de encoloures em escala planetária
(direitos de poluição, quotas individuais negociáveis
no setor pesqueiro, direitos de propriedade de espécies geneticamente
modificadas etc.). Pesquisas recentes, que têm procurado não
confundir noções de livre acesso e de propriedade
comum, poderão subsdiar as políticas públicas
do País. Suas descobertas têm proporcionado o reconhecimento
nas práticas tradicionais de manejo coletivo dos recursos
renováveis uma atenção à variabilidade
constitutiva de sistemas vivos, ao contrário de apropriações
privadas que se orientam por injunções econômicas
da racionalidade econômica.
Referências bibliográficas
MILLENNIUM ECOSYSTEM ASSESMENT: Ecosystem and Human
Well-being: Synthesis Reports: http://www.millenniumassessment.org/en/,
March, 2005.
VIEIRA, Paulo Freire; BERKES, Fikret; SEIXAS, Cristiana.
Gestão Integrada e Participativa de Recursos Naturais: conceitos,
métodos e experiências. Florianópolis: Secco/APED,
2005.
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