| FAMILISMO,
AMIZADE E PARTICIPAÇÃO SOCIOPOLÍTICA EM UMA
UNIDADE DE CONSERVAÇÃO DE USO SUSTENTÁVEL
Marcus Machado Gomes
(IBAMA, Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, RJ)
Este trabalho constitui-se de reflexões (1)
resultantes da experiência, atualmente em curso, de formação
do conselho gestor da Reserva Extrativista Marinha de Arraial do
Cabo. Pretende-se contribuir para o debate acerca de obstáculos
e potencialidades daquilo que se propõe por gestão
ambiental participativa.
Importa, contudo, assinalar que "participação"
assume muitos significados entre os diferentes atores sociais que
interagem em qualquer que seja o contexto analisado. Assim, torna-se
essencial compreender as diferenças e incongruências
entre a "participação" proposta pelos órgãos
de governo e aquela idealizada pelas comunidades locais, entidades
de classe ou organizações ambientalistas. Experiências
de efetiva intervenção popular na execução
de políticas públicas nem sempre são reconhecidas,
concebidas ou nomeadas como "participativas".
Percebe-se que muitas ações empreendidas
por coletivos organizados no Arraial do Cabo, sejam elas mais espontâneas
ou mais coordenadas e formalizadas, operam a idéia da "participação"
conforme relações e visões de mundo peculiares.
O ideário supostamente universal da "participação
cidadã", veiculado por agentes governamentais e não-governamentais,
comporta muitas traduções locais, que podem colidir
com os limites impostos pela legislação vigente à
interferência pública sobre políticas governamentais.
Assim, o objetivo deste trabalho é discutir,
a partir do caso estudado, as possibilidades de intervenção
das populações ditas "tradicionais" (Diegues,
1998) na formulação das políticas públicas
relativas às áreas protegidas a que estão vinculadas.
Pretende-se também discutir as possibilidades de formação
de um conselho gestor que propicie a constituição
de uma comunidade de aprendizado e diálogo interétnico.
Em conformidade com tais objetivos, que envolvem
construção de novos conhecimentos e planejamento de
ações transformadoras, acolho a proposta que Thiollent
(2002) denomina "pesquisa-ação", em cuja
argumentação estabelece as bases metodológicas
que asseguram o ideal científico.
Além das técnicas de coleta de dados
que compõem o consagrado exercício da observação
participante, como entrevistas semi-estruturadas e histórias
de vida, empregou-se técnicas de seminário e trabalhos
em grupo que aproximam atores antagônicos e põem seus
diferentes saberes em diálogo. Portanto, tal experiência
pretendeu ser participante, não no sentido usual do termo,
onde apenas o pesquisador participa da vida comunitária.
Aqui, as comunidades locais também participam ativamente
da construção de um conhecimento compartilhado do
espaço no qual interagem.
O estudo do presente caso é uma oportunidade
de se pensar a implementação de UCs de uso sustentável
com presença de grupos humanos classificados como populações
tradicionais em circunstâncias de forte urbanização
e estreita interação com o mercado capitalista e com
o modo de produção industrial. Trata-se de uma UC
cuja área encontra-se sob a influência de uma indústria,
um porto e intenso tráfego de barcos de pesca, de passeio,
embarcações comerciais e militares, além de
uma cidade de aproximadamente 25 mil habitantes, forte apelo turístico
e ocupação desordenada. Ademais, Arraial do Cabo atrai
o interesse científico de pesquisadores de diferentes disciplinas.
Assim, é um lugar de múltiplos usuários, para
onde convergem diferentes olhares e interesses, e sobre o qual se
constróem variados discursos.
A experiência permite sobretudo pensar a duplicidade
de uma moralidade pessoal, que enfatiza relações de
amizade e parentesco, combinada com o sistema de normas universais
e impessoais, dilema da sociedade brasileira, segundo DaMatta (1997)
.
Observa-se em Arraial do Cabo múltiplas entidades
que se apresentam como representantes dos pescadores artesanais/tradicionais,
mas pouco reconhecidas como tal. Ouve-se de entrevistados freqüentes
acusações de que seus mandatários defenderiam
preferencialmente os interesses de grupos familiares e amigos mais
próximos. Algumas organizações congregam, de
fato, em reduzido quadro de associados, extensos grupos de parentes
e amigos. Estas relações de amizade aparentemente
mantêm a coesão de determinados grupos.
A este respeito, Reis (1995) aciona o conceito de
familismo amoral para examinar a história da constituição
de uma arena pública na América Latina. Para a autora,
a construção de um ethos que subordina os interesses
individuais a um ideal comunitário e nacionalista esteve
historicamente calcada num processo de modernização
e crescimento econômico liderado pelo Estado.
Contudo, a atrofia do Estado e a progressiva perda
de seus papéis de controlador da economia e de fiador da
lei e da ordem corroem a confiança anônima na sociedade
mais ampla. Se, por um lado, a solidariedade implica sentimentos
de integração e inclusão e, por outro, vastas
parcelas da população sentem-se excluídas,
tanto das decisões políticas quanto do acesso aos
bens sociais e materiais, tem-se como resultado a formação
de uma moral coletiva restrita aos laços pessoais.
A arena aberta pela criação da RESEX
de Arraial do Cabo ilustra a emergência desse familismo amoral
à moda latino-americana. Obviamente, ele é preexistente
à UC, mas encontrou ali mais um campo para manifestar-se.
As expectativas das associações comunitárias
em relação à arena pública confirmam
o modelo de cidadania que promove em nosso continente uma identidade
coletiva em torno do Estado-nação. Assim, os movimentos
sociais locais sustentam a idéia de que a autoridade estatal
- neste caso, o IBAMA - deve liderar o debate público e assegurar
a solidariedade comunitária, recorrendo, se preciso for,
ao uso do poder de polícia. Segundo tal visão, esta
solidariedade depende mais da decisão final do Estado do
que do processo de construção de acordos e consensos.
Por este motivo o respeito aos acordos dependa de
uma constante vigilância e de uma atitude punitiva por parte
do órgão estatal.
(1) Reflexões em parte formuladas em dissertação
de mestrado apresentada ao PPCIS UERJ - Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais, Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
em julho de 2005, sob orientação da Profa. Dra. Rosane
Manhães Prado.
Referências Bibliográficas
DAMATTA, Roberto (1997) - Carnavais, malandros e
heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de
Janeiro: Rocco.
DIEGUES, Antonio Carlos. (1998) - 0 mito moderno
da natureza intocada. São Paulo: Hucitec.
REIS, Elisa P. (1995) - Desigualdade e solidariedade:
uma releitura do "familismo amoral" de Banfield. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, ano 10, nº 29, pp. 35-48.
THIOLLENT, Michel (2002) - Metodologia da pesquisa-ação.
São Paulo: Cortez. 11a ed.
-------------------
Marcus Machado Gomes: marcusmgomes@gmail.com - Rua John Kennedy
105, Baleia. 28930-000. Arraial do Cabo, RJ
|