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PODE-SE
PRESERVAR SEM EXCLUIR ?
Alexandre Peres
Maitê Guedes
Raquel Giffoni
Rian Rezende
Renato Castro
Silvia Monerat
Telêmaco Montenegro
Contexto do trabalho e justificativa:
Nosso trabalho visa problematizar as reações
advindas do projeto apresentado recentemente pela direção
da APA Guapimirim, de transformação do coração
da APA em Estação Ecológica da Guanabara (área
de uso restrito). Esta iniciativa é justificada pelo IBAMA
e defendida por organizações ambientalistas como sendo
a melhor solução para a sustentabilidade dos recursos
naturais desta área, em processo de progressivo esgotamento.
Por outro lado, o conjunto dos pescadores, que desses recursos vivem,
problematizam de maneira distinta a questão do declínio
dos recursos naturais da área, evidenciando a existência
de concepções diferentes a respeito da idéia
de inclusão social.
Objetivos:
Refletir a respeito da relação entre
as diferentes formas de apropriação do espaço
e as diversas concepções a respeito da inclusão
e exclusão social, delas decorrentes.
Metodologia:
Para a realização deste trabalho foi
consultada literatura referente às UCs; estudos disponíveis
sobre a APA Guapimirim; coleta de dados pertinentes a problemáticas
da pesquisa (históricos, socioeconômicos, fisicogeográficos).
Também foi aplicado um questionário, destinado à
uma amostra da população residente na localidade de
Itambí, dentro da APA Guapimirim, visando a realização
de um diagnóstico socioeconômico da mesma. Este foi
aplicado a setenta chefes de família durante o mês
de abril de 2005. A análise dos dados coletados limita-se
ao grupo dos 38 entrevistados cuja atividade é a pesca e
a captura de caranguejos.
Reflexões Centrais para Políticas
Públicas:
O diagnóstico socioeconômico e as observações
de campo permitiram identificar na comunidade estudada dimensões
que promovem sentimentos de inclusão social e outras que
levam à percepção da exclusão. Por um
lado, os entrevistados têm a posse do terreno, a propriedade
da casa onde vivem e têm também o reconhecimento de
sua identidade profissional, decorrente de anos de exercício
da atividade da pesca e da coleta de caranguejo. Mesmo que a renda
proveniente deste ofício seja modesta (em torno de 1 salário
mínimo) a estabilidade na moradia e a confiança na
natureza conferem-lhes uma certa estabilidade. Por outro lado, a
deficiência de infra-estrutura urbana da localidade, como
a falta de saneamento básico e de pavimentação,
o generalizado abastecimento clandestino de água e luz, a
precariedade da única área de lazer comunitária,
a abundância de insetos, entre outros incômodos, contribuem
para desenvolver a percepção de serem abandonados
pelas autoridade e excluídos da sociedade.
A implantação da Estação
Ecológica da Guanabara dentro da APA tem tornado evidente
a existência de diferentes percepções dos que
deveriam ser as melhores e mais eficientes iniciativas para a promoção
da inclusão social. No modelo de reorganização
do espaço proposto pelo Ibama, se prevê o fechamento
de uma área, que é o último remanescente de
mangue primário da Baía de Guanabara - e um dos últimos
que restam no Brasil - sendo a sua preservação de
fundamental importância, tanto ambiental, como social. O Ibama
argumenta que a Estação Ecológica traria a
longo prazo uma melhoria nas condições de trabalho
e de vida para a população local, visto que no espaço
de aproximadamente dois anos, as espécies que ali habitam
poderiam procriar e se expandir para as áreas vizinhas. Esse
projeto representa para o Ibama o melhor modelo possível
de inclusão social tendo em vista a necessidade de preservação.
Todavia os pescadores acreditam que este modelo
é excludente na medida em que impede o acesso à sua
principal área de trabalho, lugar com o qual se identificam
profissional e socialmente. As alternativas colocadas pelos pescadores
e catadores à criação da ESEC-Guanabara têm
sido de outra ordem. Em primeiro lugar deve-se providenciar a despoluição
dos rios e exercer uma maior fiscalização por parte
do Ibama sobre as indústrias do entorno que despejam efluentes
na bacia. Em seguida, as prefeituras têm que proceder para
o tratamento de esgoto, a recuperação das áreas
degradadas, o desenvolvimento de programas comunitários para
a limpeza e o replantio do manguezal, o subsidio para a compra de
melhores embarcações que permitam aos pescadores atingir
o interior da baía. Finalmente, são formuladas propostas
para integrar a comunidade nas tarefas de fiscalização,
no sentido que os próprios pescadores vistoriem o manguezal
e controlem a pesca e a cata de caranguejo. Podemos observar que
estas propostas estão intrinsecamente ligadas à prática
profissional dos pescadores, na qual o ambiente social e o ambiente
natural são indissociáveis. Sendo assim, a criação
da ESEC, de um lado, não vem acompanhada de propostas de
compensação das perdas sofridas pelo fechamento da
área, que pudessem atenuar as dimensões da exclusão
social. Do outro, atinge de forma dramática justamente as
dimensões que promovem a inclusão social.
No mês de abril de 2005, ocorreu um acidente
ferroviário que provocou o derramamento de óleo no
rio Caceribu, atingindo parte da APA, até a baia de Guanabara.
As atividades de pesca foram suspensas por cerca de um mês,
período durante o qual foram discutidas políticas
de recuperação das áreas afetadas. Este evento
tornou ainda mais evidente a contradição acima apontada,
confirmando a insuficiência do fechamento da área como
única medida para sua proteção.
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