| TRAJETÓRIAS
DE INSTITUCIONALIZAÇÃO DE ÁREAS PROTEGIDAS
Monika Röper
(GTZ, Cooperação Técnica Alemã, Brasília)
Este trabalho (1) representa uma contribuição
à análise da criação e implementação
de áreas protegidas a partir de abordagens teóricas
recentes da geografia humana. Estas preconizam que o espaço
é produzido por diferentes atores sociais através
de atos cotidianos de regionalização (Werlen 1997).
As regionalizações cotidianas resultam da apropriação
simbólica e informacional do espaço, seguida da negociação
sócio-política de direitos de acesso, atuação
e decisão. No caso das áreas protegidas, a percepção
diferenciada da natureza e da necessidade de sua conservação
seria expressão da apropriação do espaço,
enquanto que a implementação representaria uma forma
específica de controle do mesmo. No entanto, a institucionalização
do espaço como área protegida não deriva apenas
de ponderações técnico-científicas e
jurídicas, constituindo um complexo cenário de interesses,
muitas vezes conflitantes, de uma série de atores direta
e indiretamente envolvidos.
Esta conceituação foi utilizada para
caracterizar três casos de trajetórias concretas de
institucionalização de áreas protegidas (Estação
Ecológica Serra das Araras, Parque Nacional da Chapada dos
Guimarães e Parque Nacional do Pantanal Matogrossense). Em
todas a apropriação do espaço ocorreu através
da justificação da necessidade de conservá-las
à base de considerações científicas,
ainda que em parte o processo de planejamento subseqüente se
caracterizasse por procedimentos aleatórios ou intuitivos.
As justificativas também terminaram por influenciar o formato
territorial e a regulamentação institucional das áreas,
já constituindo mecanismos de controle do espaço.
Isto compreende particularmente a seleção de uma categoria
de conservação adequada, que já predetermina
uma série de dispositivos para o futuro uso e a gestão
da área. A partir desta etapa iniciou-se uma interação
mais explícita com as regionalizações já
presentes nos recortes espaciais selecionados, entre as quais temos:
Regionalizações administrativas (tais
como limites políticos e administrativos) que são
sobrepostas pela área protegida criada.
Regionalizações cotidianas consolidadas:
São aquelas que não são ameaçadas ou
contestadas por outros formatos de regionalização.
Os sistemas de uso de recursos que nelas se baseiam mostram-se funcionais
e os direitos de acesso e decisão dos atores que os praticam
encontram-se garantidos.
Regionalizações em dissolução:
Este grupo agrega regionalizações que por algum motivo
não podem mais ser perpetuadas. Os motivos para tanto podem
ser diferenciados, compreendendo desde conflitos com defensores
de outras regionalizações, sistemas de uso em crise,
etc. A dissolução é acompanhada pela perda
de direitos de acesso e decisão.
Regionalizações em consolidação:
São todas as formas de regionalização recém
estabelecidas ou introduzidas. Os atores que as promovem estão
em condição de impor-se sobre atores que defendem
regionalizações concorrentes.
Evidenciou-se que, dependendo das particularidades
ecológicas, sócio-econômicas e políticas
de cada caso, bem como das estratégias de implementação
adotadas, os processos de institucionalização seguiram
trajetórias bastante diferenciadas. Podemos observar um espectro
que abrange:
Um caso de razoável consolidação
da institucionalização (E.E. Serra das Araras): A
área protegida impôs-se sobre as demais regionalizações,
mas somente através de mecanismos coercitivos.
Um cenário caracterizado por conflito e contestação
(particularmente P.N. Chapada dos Guimarães): Apesar de ter
alcançado um certo grau de institucionalização,
a área protegida é fortemente contestada pelas demais
formas de regionalização presentes. Os responsáveis
pela gestão não conseguem fazer valer a institucionalização
da área, ainda que o seu status jurídico e institucional
seja inconstestável. Os sistemas de uso pré-existentes
seguem em aplicação, mesmo que parcialmente colocando
em cheque os objetivos da conservação.
Um caso de dissolução da área
protegida, em que a institucionalização praticamente
não se inscreve no território de forma concreta (P.N.
Pantanal Matogrossense). Este quadro não implica na reversão
jurídica do status de área protegida. No entanto,
as demais regionalizações e os seus sistemas de uso
associados seguem em aplicação como se a área
não existisse. Este cenário resultou do extremo isolamento
da área, que fez com que os esforços de institucionalização
não alcançassem uma expressão concreta significativa.
No entanto, aplicando este instrumentário
analítico às experiências inovadoras de criação
e gestão de áreas protegidas no Brasil, em que se
destacam as metodologias participativas, dinâmicas e adaptativas,
também é possível chegar a um cenário
alternativo de interação. Este destaca-se dos anteriores
na medida em que a interação com as demais formas
de regionalização não se inicia após
a definição de formas territoriais e arranjos institucionais,
acontecendo desde o início do processo e através de
mecanismos de negociação. Estas negociações
podem fragilizar a fundamentação científica
das propostas, mas em compensação estas podem contar
com uma maior aceitação pelos atores envolvidos. Esta
estratégia não objetiva evitar conflitos e sim incorporá-los
como parte integrante do processo de negociação. O
cenário não exclui a eventual necessidade de reprimir
ou mesmo excluir determinadas regionalizações e sistemas
de uso do território da área protegida e é
possível que os atores que os defendem reajam ou procurem
opor-se à exclusão. No entanto, mesmo havendo interrupção
das negociações ou medidas repressivas, o envolvimento
dos demais atores pode conferir maior legitimidade e aceitação
a estas ações.
Porém, nem todas as regionalizações
e usos necessariamente terão que ser excluídas. A
estratégia de negociação pode permitir abordagens
graduais e compromissos em busca de soluções flexíveis
e adaptadas. No entanto, particularmente quando há envolvimento
de atores com acesso limitado a fontes de poder e decisão,
o sucesso destas iniciativas depende do estabelecimento ou fortalecimento
de redes e estruturas organizacionais funcionais. O caráter
processual deste cenário é o seu principal diferencial:
não se alcança um estágio final. O processo
de interação entre os envolvidos é dinâmico
e permanente, permitindo assim vislumbrar modelos mais sustentáveis
e viáveis de conservação.
(1) Apresenta-se aqui o resumo das conclusões
de uma tese de doutorado realizada no âmbito do Projeto "Estrutura
sócio-econòmica e dinàmica dos impactos ambientais
na Bacia do Alto Paraguai", uma cooperação entre
o Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos da UFMT e o Instituto
de Geografia da Universidade de Tübingen, Alemanha, integrada
ao Programa SHIFT (Studies on Human Impacts on Forests and Floodplanis
in the Tropics).
Referência bibliográfica
Werlen, B. Sozialgeographie alltäglicher Regionalisierungen.
Stuttgart, 1997.
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Dr. Monika Röper. monika.roeper@gtz.de. GTZ/PCE/ARPA. W3 Sul,
Qu. 514, Bl. B, loja 59, 1o. andar. 70.380-525 Brasília /
DF.
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