| A PARQUE
URBANO DA PAZ: A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO CONCEITO NO
PARQUE NACIONAL DA TIJUCA
Sônia Peixoto1
Marta de Azevedo Irving2
Ana Paula Leite Prates3
Iara Vasco Ferreira4
Introdução
Em países em desenvolvimento, os Parques Nacionais
urbanos representam áreas protegidas de extrema vulnerabilidade
com relação à sua base de recursos naturais
e, freqüentemente estão associados a contextos sistemáticos
de violência e risco, motivados pelas questões de exclusão
social e pelas pressões urbanas para uso do solo.
Esse quadro de vulnerabilidades tende a delinear
novas demandas para a gestão, com enfoque nitidamente ético
e social. Em áreas de violência e risco, a estratégia
de conservação dos recursos naturais emerge, muitas
vezes, como uma alternativa para a construção de cidadania
e capital social. Ressalta-se, ainda, que a gestão da biodiversidade,
nesse caso, será pouco eficiente se não forem considerados
novos valores em sua prática, principalmente no que diz respeito
aos novos conceitos de participação e controle social.
O paralelo entre natureza e violência
urbana
Os índices de violência e criminalidade
são fatores importantes para o desenvolvimento sustentável
e a preservação das áreas naturais protegidas
por conta de acarretarem altos custos sociais, econômicos
e ambientais. O trabalho realizado pelo ISER (2000) afirma que "a
maioria dos crimes cometidos ocorre em regiões de alta concentração
de habitantes com condições precárias de qualidade
de vida. A proporção de habitantes que moram em municípios
de mais de 100 mil habitantes é a variável que mais
correlaciona com taxas de homicídios estaduais no Brasil.
Dentro do estado do Rio de Janeiro, a proporção de
habitantes que moram em área urbana é a variável
que apresenta maior impacto na taxa de homicídios municipal.
Estas relações se mantêm mesmo após controlar
o efeito de renda, a desigualdade e a educação, mostrando
que a urbanização parece ser um dos fenômenos
principais para explicar as elevadas taxas de homicídio no
Brasil."
Ainda, segundo o referido trabalho, as Áreas
de Planejamento Municipais (APs) que circundam o Parque Nacional
da Tijuca (Zona Sul, Zona Norte, Barra da Tijuca e Jacarepaguá)
apresentam, somadas, a taxa de 200,5 homicídios por cem mil
habitantes/ano, sendo que as duas restantes somadas apontam para
a metade da taxa verificada. Esse dado nos remete as situações
verificadas em conflitos armados entre civis ou estados de guerra
entre países onde o número de mortes nos traduzem
a realidade dessa violência. Em áreas transfronteiriças
onde países, historicamente, encontram-se em guerra, o conceito
dos "Peace Parks" vem sendo empregado como forma de minimizar
esses conflitos, protegendo a biodiversidade ao tempo em que se
trabalha a aproximação dos povos. (Marincic, 2003).
O Mapa de Violência no Brasil, elaborado pela
Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO, 2004),
abordando juventude, violência e cidadania, revela um crescimento
anual de 5,5% na ocorrência de crimes como homicídios
no Brasil, aumentando para 54,5% em 2002, contra 30% em 1980, sendo
o país o quinto no ranking de homicídios de jovens.
Ainda de acordo com a pesquisa, o estado do Rio de
Janeiro ocupa agora o primeiro lugar no ranking de homicídios
no país, com as taxas subindo de 50,9 em 2002 para 56,3 em
2004, por cem mil habitantes, com crescimento de 10,6% comparando-se
os períodos. A Cidade do Rio de Janeiro apresenta taxa de
64,2 cem mil habitantes, em quarto lugar entre as regiões
metropolitanas do país.
No entorno do Parque Nacional da Tijuca encontram-se
43 assentamentos de baixa renda (favelas) circundando a unidade,
algumas das quais apresentando altas taxas de homicídios
aliadas a diminuição da renda per capita em 2,2,%
e ao desemprego girando em torno dos 3,5% (ISER, 2001).
Constata-se que o crime organizado já se encontra
instalado nas favelas. Em cada uma delas os chefes do tráfego
de drogas comandam verdadeiros "exércitos" de jovens.
Os criminosos lucram milhões com a venda ilícita e
dispõem de granadas, sofisticadas metralhadoras e eficiente
equipamentos de comunicação. A situação
é tão grave que o Governo Federal analisa o uso de
tropas federais no Rio de Janeiro, como ocorreu na Conferência
Mundial do Meio Ambiente em 1992 e o Ministro da Justiça,
em entrevista, declarou que "a medida pode ser precisa porque
a guerra entre os traficantes se assemelha a uma situação
de guerrilha urbana", conforme divulgado nos veículos
de comunicação nacionais e internacionais ( www.dnoticias.com.pt).
A situação de violência na cidade
se reflete na consecução dos objetivos de manejo,
não só do Parque Nacional da Tijuca, mas também
nas demais unidades de conservação estaduais e municipais
inseridas na malha urbana da cidade do Rio de Janeiro, destacando-se
o Parque Estadual da Pedra Branca e o Parque Municipal do Mendanha.
Alguns projetos de integração com as comunidades do
entorno se iniciaram demonstrando ser possível a conversão
de iniciativas conservacionistas para o bem estar social, estabelecendo
o início da factual relação entre a natureza
e paz.
O Conceito de Parques da Paz
De uma maneira geral, o conceito de Parques da Paz
surge a partir da noção de cooperação
para a paz em áreas de fronteira e são diversas as
iniciativas em curso, de abrangência mundial, envolvendo a
interação permanente e a cooperação
entre áreas protegidas divididas por fronteiras. Da mesma
maneira, sempre parece ter havido o reconhecimento de que essas
áreas têm um simbólico valor para a paz a para
a ação conjunta de conservação.
Na publicação "Transboundary Protected
Áreas for Peace and Co-operation" é apresentado
e discutido esse conceito, assim como são elencadas algumas
das principais áreas potenciais nos diversos continentes.
(Sandwith et al, 2001)
Segundo IUCN/WPCA (op. cit), já em 1932, o
Waterton-Glacier International Peace Park foi criado para comemorar
a longa história de paz e amizade entre os Estados Unidos
e o Canadá e também para enfatizar os aspectos da
interação sob a ótica natural e cultural entre
os dois países. E, desde então, muitas tem sido as
iniciativas nessa direção, não apenas no que
se refere a áreas protegidas efetivamente estabelecidas em
zonas de fronteira mas também com relação à
cooperação entre regiões vizinhas.
Nesse sentido, desde 1997, a IUCN tem promovido a
estratégia de Parques para a Paz como um mecanismo de fomento
e cooperação regional para a conservação,
prevenção de conflitos, reconciliação
e desenvolvimento regional sustentável.
Muitos são atualmente os conceitos e definições
usados para Parques da Paz e, freqüentemente, este termo é
relacionado a áreas protegidas com um significativo passado
de conflito.
No entanto, segundo a IUCN, Parques para a Paz são
áreas transfronteiriças formalmente dedicadas à
proteção e manutenção da diversidade
biológica e dos recursos naturais e culturais e para a promoção
da paz e cooperação.
Evidentemente que esse conceito não se aplica
diretamente a um parque urbano, inserido nos limites de um mesmo
estado ou município mas ele funciona como inspiração
para uma nova proposta, em construção, vinculada às
áreas protegidas urbanas, submetidas a um elevado grau de
pressão antrópica e tensão social. Nessas áreas,
a estratégia para valorização da paz pode se
vincular também à gestão como uma alternativa
para se trabalhar o conflito e a cidadania. Assim, a área
protegida passa a ter um valor simbólico ampliado e se internaliza
no imaginário não apenas como possibilidade de lazer
e contato com a natureza mas também como elemento central
de qualidade de vida e dignidade para o cidadão urbano. Assim,
um Parque Nacional pode se transformar, além de meio de conservação
da base de recursos naturais em símbolo e veículo
de novos valores.
A construção de um novo conceito
O Parque Nacional da Tijuca possui atributos excepcionais
de beleza cênica e natural: maciços rochosos, quedas
d'água, riachos, fauna e flora da Floresta Atlântica,
mirantes e como o fato de nele estarem situados alguns dos marcos
e símbolos da cidade e mesmo do país, tais como: estátua
do Cristo Redentor no Corcovado, a Vista Chinesa e a Capela Mayrink.
Associada ao ufanismo que o carioca demonstra pelo
Parque Nacional da Tijuca, encontra-se a violência imposta
pelo narcotráfico à população da cidade
do Rio de Janeiro determinando, inclusive, códigos implícitos
de divisão e uso de espaços públicos, em especial
nas próprias favelas, onde os traficantes se apresentam como
gerenciadores territoriais de direito.
Para Zaluar (1998) "a imagem da favela ficou
registrada como área de precariedade urbana, como o lugar
de carência, da falta, do vazio a ser preenchido pelos sentimentos
humanitários, do perigo a ser erradicado pelas estratégicas
políticas que fizeram do favelado um bode expiatório
dos problemas da cidade". Ainda segundo a autora, com a chegada
do tráfico de drogas, na década de setenta, "a
favela passou a ser representada como um covil de bandidos, zona
franca do crime, hábitat natural das classes perigosas".
Apesar desse imaginário constata-se que mesmo
nas favelas situadas em zonas de conflito armado, também
existem substanciais redes de solidariedade onde podem ser construídos
novos conceitos e modelos que objetivem a preservação
dos parques urbanos situados em metrópoles com altas taxas
de violência associando proteção da natureza,
paz e solidariedade.
Trata-se de uma problemática complexa que
envolve questões de habitação, urbanização,
segurança pública etc, bem como a desconstrução
de representações simbólicas. Entretanto, no
entorno das unidades de conservação onde se existem
conflitos armados, não há como o poder público
ambiental se ausentar ou ignorar tal situação.
A equipe do Parque Nacional da Tijuca vem enfrentando
o desafio imposto refletindo-se, dentre outros aspectos, na continuidade
de projetos para integração com as comunidades do
entorno, mesmo em áreas que apresentam altas taxas de homicídios
ou mortes provocadas por conflitos armados. Tendo como instrumento
a melhoria de sua efetividade, a unidade desenvolve ações
estratégicas e integrativas, que não excluem a participação
de demais esferas governamentais e da sociedade civil organizada
na responsabilidade de atuação conjunta na melhoria
de qualidade de vida dos cidadãos.
Destaca-se também a informação
prestada à com a população do entorno com relação
à unidade de conservação, suas importâncias
artísticas, históricas e ambientais e as formas de
utilização deste espaço, a começar pelo
seu conhecimento e a criação no imaginário
dos cidadãos de um símbolo de natureza próximo
que pode se harmonizar com a realidade de vida da cidade.
No contexto do pioneirismo das ações
desenvolvidas pelo Parque Nacional da Tijuca, como o reflorestamento
da unidade realizado no século XIX para assegurar o abastecimento
de água para a cidade do Rio de Janeiro e o primeiro Parque
Nacional que compartilha a sua gestão com o poder local,
entende-se que o estabelecimento do conceito de Parque Urbano da
Paz seja uma proposta factível e que será desenvolvida
pela unidade através da incorporação do conceito
nos seus projetos de manejo e divulgado para os demais gestores
de áreas protegidas.
Além do exposto, entende-se que a transposição
de um modelo semelhante ao desenvolvido pela IUCN em parques transfronteiriços
poderá vir a ser um forte instrumento de cooperação
e integração entre a área ambiental e a população
do entorno, resgatando o das unidades de conservação,
colaborando na minimização de conflitos e associando
natureza e paz.
Referências bibliográficas
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Século de Favela. Fundação Getúlio Vargas,
Rio de Janeiro. 370p.
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1 Bióloga, Chefe do Parque Nacional
da Tijuca, IBAMA, soniapeixoto@terra.com.br
2 Bióloga, PhD., Programa Eicos/Universidade
Federal do Rio de Janeiro, mirving@unikey.com.br
3 Engenheira de Pesca, PhD, Ministério
do Meio Ambiente, ana-paula.prates@mma.gov.br
4 Socióloga, MSc., Ministério
do Meio Ambiente, iara.vasco@mma.gov.br
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