Publicado em dezembro de 2005



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A SITUAÇÃO SÓCIO-ECOLÓGICA DAS POPULAÇÕES HUMANAS EM ÁREAS PROTEGIDAS: UM EXEMPLO DA MATA ATLÂNTICA

Hilton P. Silva
Departamento de Antropologia
Setor de Antropologia Biológica
Laboratório de Estudos Bioantropológicos em Saúde e Meio Ambiente
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro
hdasilva@acd.ufrj.br

Pouco ainda se sabe sobre os grupos humanos que residem próximo ou dentro de Áreas Protegidas (APs) no Brasil. A partir de um projeto piloto, este trabalho amplia o entendimento das relações entre os seres humanos e o meio ambiente em APs, com objetivo de contribuir para a preservação ecológica e a qualidade de vida dos grupos rurais que vivem em áreas de relevante diversidade biológica na Mata Atlântica. Diferentes aspectos ecológicos, sociais, econômicos, e de estilos de vida e saúde das populações de três APs do Município de Santa Teresa, Espírito Santo, têm sido investigados como um primeiro passo para: 1. A proposição de políticas públicas municipais sobre saúde e meio ambiente, 2. O desenvolvimento de estratégias para a gestão das APs, e 3. O desenvolvimento de programas integrados e participativos de educação ambiental e em saúde. Todas as unidades domésticas na divisa com as APs são convidadas a participar do projeto, visando conhecer o máximo possível sobre cada propriedade e as famílias que nela moram, sua situação sócio-ecológica, estilo e hábitos de vida, e modos de interação com as APs. O projeto adota uma perspectiva ecossistêmica, que envolve pesquisadores e comunidades na elaboração e implementação das atividades, desde suas primeiras etapas até a sua conclusão. Um total de 178 famílias, de 119 propriedades, participam da pesquisa. Em geral, como na maioria das áreas rurais do Brasil, as condições de infra-estrutura sanitária e de saúde do entorno das APs são precárias; mais de 60% da água utilizada vem diretamente de rios e nascentes, e 51% dos residentes a usa sem tratamento; a maior parte do lixo doméstico é enterrado (34,4%), incinerado (24,1%), ou ambos (24,3%), não há tratamento de esgotos, e há elevada prevalência de parasitoses intestinais. Aproximadamente 46% das famílias têm mais de três filhos; 53% da população tem menos de 25 anos de idade, e os níveis de escolaridade são baixos. Mais de 85% da área cultivada é dedicada a produtos comerciais, que fazem uso intenso de agroquímicos; as plantações de eucalipto estão se expandindo rapidamente, em detrimento de outras culturas tradicionais; grande parte dos moradores são trabalhadores temporários; a caça e a extração ilegal de produtos florestais dentro das APs é comum, e muitos habitantes sequer sabem que vivem no entorno de APs. O crescimento demográfico desordenado e a degradação ambiental antrópica são as principais preocupações do MMA sobre populações humanas em APs, e têm sido grandes desafios para a efetiva gestão das áreas. Neste sentido é relevante o fato de que há altas taxas de fertilidade e uma grande proporção de indivíduos em idade reprodutiva na área estudada, o que indica que haverá, nos próximos anos, um acelerado crescimento populacional no entorno das APs. Além disso, as precárias condições de saneamento e saúde, o uso intensivo de insumos químicos, e a ampliação da monocultura do eucalipto indicam grande stress ecológico para o meio ambiente e para as populações. A garantia da existência e do cumprimento das funções sócio-ambientais das APs só será possível quando no seu plano de gestão for levado em consideração a situação das populações locais e quando estas, por sua vez, efetivamente reconhecerem e valorizarem as APs. Para isso é necessário um esforço coletivo de construção de conhecimentos detalhados sobre a situação dos grupos locais, e a incorporação destes grupos no contexto das APs. O entendimento da complexa dinâmica demográfica e sócio-ecológica das populações das APs é fundamental para a proteção física destas áreas, e para que se possa planejar e implementar políticas públicas que sejam culturalmente aceitáveis, e programas que sejam localmente desenvolvidos e participativos, visando a promoção simultânea de preservação ambiental e melhoria da qualidade de vida das populações.

 

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