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A SITUAÇÃO
SÓCIO-ECOLÓGICA DAS POPULAÇÕES HUMANAS
EM ÁREAS PROTEGIDAS: UM EXEMPLO DA MATA ATLÂNTICA
Hilton P. Silva
Departamento de Antropologia
Setor de Antropologia Biológica
Laboratório de Estudos Bioantropológicos em Saúde
e Meio Ambiente
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro
hdasilva@acd.ufrj.br
Pouco ainda se sabe sobre os grupos humanos
que residem próximo ou dentro de Áreas Protegidas
(APs) no Brasil. A partir de um projeto piloto, este trabalho amplia
o entendimento das relações entre os seres humanos
e o meio ambiente em APs, com objetivo de contribuir para a preservação
ecológica e a qualidade de vida dos grupos rurais que vivem
em áreas de relevante diversidade biológica na Mata
Atlântica. Diferentes aspectos ecológicos, sociais,
econômicos, e de estilos de vida e saúde das populações
de três APs do Município de Santa Teresa, Espírito
Santo, têm sido investigados como um primeiro passo para:
1. A proposição de políticas públicas
municipais sobre saúde e meio ambiente, 2. O desenvolvimento
de estratégias para a gestão das APs, e 3. O desenvolvimento
de programas integrados e participativos de educação
ambiental e em saúde. Todas as unidades domésticas
na divisa com as APs são convidadas a participar do projeto,
visando conhecer o máximo possível sobre cada propriedade
e as famílias que nela moram, sua situação
sócio-ecológica, estilo e hábitos de vida,
e modos de interação com as APs. O projeto adota uma
perspectiva ecossistêmica, que envolve pesquisadores e comunidades
na elaboração e implementação das atividades,
desde suas primeiras etapas até a sua conclusão. Um
total de 178 famílias, de 119 propriedades, participam da
pesquisa. Em geral, como na maioria das áreas rurais do Brasil,
as condições de infra-estrutura sanitária e
de saúde do entorno das APs são precárias;
mais de 60% da água utilizada vem diretamente de rios e nascentes,
e 51% dos residentes a usa sem tratamento; a maior parte do lixo
doméstico é enterrado (34,4%), incinerado (24,1%),
ou ambos (24,3%), não há tratamento de esgotos, e
há elevada prevalência de parasitoses intestinais.
Aproximadamente 46% das famílias têm mais de três
filhos; 53% da população tem menos de 25 anos de idade,
e os níveis de escolaridade são baixos. Mais de 85%
da área cultivada é dedicada a produtos comerciais,
que fazem uso intenso de agroquímicos; as plantações
de eucalipto estão se expandindo rapidamente, em detrimento
de outras culturas tradicionais; grande parte dos moradores são
trabalhadores temporários; a caça e a extração
ilegal de produtos florestais dentro das APs é comum, e muitos
habitantes sequer sabem que vivem no entorno de APs. O crescimento
demográfico desordenado e a degradação ambiental
antrópica são as principais preocupações
do MMA sobre populações humanas em APs, e têm
sido grandes desafios para a efetiva gestão das áreas.
Neste sentido é relevante o fato de que há altas taxas
de fertilidade e uma grande proporção de indivíduos
em idade reprodutiva na área estudada, o que indica que haverá,
nos próximos anos, um acelerado crescimento populacional
no entorno das APs. Além disso, as precárias condições
de saneamento e saúde, o uso intensivo de insumos químicos,
e a ampliação da monocultura do eucalipto indicam
grande stress ecológico para o meio ambiente e para as populações.
A garantia da existência e do cumprimento das funções
sócio-ambientais das APs só será possível
quando no seu plano de gestão for levado em consideração
a situação das populações locais e quando
estas, por sua vez, efetivamente reconhecerem e valorizarem as APs.
Para isso é necessário um esforço coletivo
de construção de conhecimentos detalhados sobre a
situação dos grupos locais, e a incorporação
destes grupos no contexto das APs. O entendimento da complexa dinâmica
demográfica e sócio-ecológica das populações
das APs é fundamental para a proteção física
destas áreas, e para que se possa planejar e implementar
políticas públicas que sejam culturalmente aceitáveis,
e programas que sejam localmente desenvolvidos e participativos,
visando a promoção simultânea de preservação
ambiental e melhoria da qualidade de vida das populações.
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