| |
 |
A PROPÓSITO
DE ÁREAS PROTEGIDAS E GESTÃO PARTICIPATIVA: O CASO
DA ILHA GRANDE COMO ENSEJO PARA REFLEXÃO
Rosane M. Prado
Cabe esclarecer de saída que: 1) no caso da
Ilha Grande (Angra dos Reis, RJ), como, aliás, em diversos
outros casos no Brasil, as Unidades de Conservação
existentes estão cercadas de indefinições em
muitos sentidos; 2) não há ali exemplos do que acredito
que esteja sendo referido no título desta mesa como "gestão
participativa". Mas, com certeza, há o que se pensar
a propósito da configuração encontrada na Ilha
Grande em relação ao tema em questão.
Um primeiro ponto a considerar é que todos
esses conceitos, exatamente esses que estão contidos nos
títulos e chamadas deste seminário e desta mesa -
"área protegida", "inclusão social",
"gestão participativa", "participação"
-, bem como outras idéias correlatas - por exemplo,"preservação"
e "questões ambientais" -, carregam significados
que são produzidos em certas instâncias técnicas,
e que freqüentemente são colocados como valor universal.
Tais significados devem ser sempre reconhecidos e avaliados, bem
como contrapostos aos saberes e realidades locais dos contextos
em que se pretenda aplicá-los. E talvez seja essa uma premissa
mor para a realização do que quer que se pretenda
como "participativo".
Nesse sentido, o primeiro trabalho que produzi sobre
a Ilha Grande1 terminava perguntando:
o que é um problema ambiental? Para quem? "Depois que
entrou o 'Imbamba', estragou tudo.". Essa colocação,
que expressa muitas coisas, foi feita por um nativo da Ilha a propósito
de uma questão muito presente nos casos de áreas protegidas,
que é a do rigor da aplicação das leis de proteção
tendo como alvo as populações locais. "Imbamba"
aí quer dizer "Ibama", e ilustra sugestivamente
as traduções e nuances que adquirem nas visões
locais o som dos termos desse campo da "ecologia/meio ambiente"
e os seus significados. Nesse caso, como se pode ver, o que era
a solução para os órgãos ambientais
e os ambientalistas é que era o "problema ambiental"
para os nativos.
Considerando-se a diversidade das unidades de conservação
criadas a partir dos anos 70 na Ilha Grande2,
e igualmente a diversidade das praias/comunidades ali existentes,
em relação aos diferentes graus e maneiras como as
localidades vêm sendo afetadas pela intensificação
do turismo na última década, constitui um desafio
pensar propostas de gestão participativa de tais áreas.
Nesse sentido, a perplexidade da população local,
juntamente com a grande divergência e disputa entre as visões
dos muitos segmentos sociais (incluindo-se aí a polarização
entre nativos e não-nativos), são alguns dos fatores
a serem enfrentados. Coloco como exemplos: 1) o caso da Vila do
Abraão; 2) o caso da Praia do Aventureiro; 3) o caso da proposta
do "Programa de Promoção do Turismo Inclusivo
na Ilha Grande".
------------
1 "Depois que entrou o Imbamba:
Concepções de preservação ambiental
entre a população da Ilha Grande". Brasília:
XXII Reunião Brasileira de Antropologia, Fórum de
Pesquisa "Conflitos Sócio-Ambientais e Unidades de Conservação",
2000.
2 APA Tamoios,
Parque Estadual da Ilha Grande, Reserva Biológica da Praia
do Sul, Parque Estadual Marinho do Aventureiro.
|